DA MULTIDÃO À SOLIDÃO

 

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“O Pensador” por Auguste Rodin. Crédito imagem: Daniel Stockman (2010)

        Uma breve análise das etapas de socialização.

 

Com o tempo nós começamos a entrar no processo de envelhecimento (embora alguns preferem o termo de “amadurecimento”; mas não somos frutas para ficarmos maduros) e muitas coisas e costumes que nos pareciam normais há poucos anos ou até meses já não fazem ou não têm mais sentido. Práticas corriqueiras que começamos a abolir e nos afastar, maneiras de pensar, correntes políticas, nossa alimentação, nossos passatempos… Envelhecemos e indiscutivelmente mudamos ou evoluímos. Começamos a criar novos interesses e abolir práticas obsoletas, tomamos mais cuidado, nos tornamos mais prudentes para com a nossa existência e também para com o mundo a nossa volta.

 

O processo de envelhecimento é natural e biológico, nossas células ficam velhas e por extensão nossos tecidos, nossos órgãos e assim por diante, e percebemos que estamos ficando velhos quando aparece o primeiro fio de cabelo branco ou uma primeira ruga ou até mesmo aquelas insuportáveis dores na coluna. Tudo isso não é nada mais, nada mesmo que o ciclo natural de como as coisas devem ser, porém não irei abordar o aspecto fisiológico do envelhecimento, mas sim os aspectos humanos e sociais.

 

Vivemos de laços e afinidades sociais, somos seres dotados com a capacidade e a habilidade da socialização, isto é um fato incontroverso. Vivemos em sociedade e construímos constantemente elos sociais com nossos entornos: famílias, amigos, colegas de profissões, médicos, garçons e garçonetes. Estamos a todo momento praticando a arte da sociabilidade com todas as pessoas que dividem conosco os espaços público e também privado. Nós nos construímos graças aos laços sociais que tecemos durante nossas vidas. Alguns laços duram mais ou menos tempo que outros, mas todos têm um impacto X ou Y em nossa existência.

 

Mesmo nas sociedades tribais – que estão completamente ou quase isoladas das nossas – estes laços sociais estão presentes. Somos seres sociáveis em todos os aspectos. Viver nada mais é do que construir laços sociais que visam alicerçar uma amizade, um casamento, uma promoção no trabalho, um desconto na feira ou até mesmo comprar ações de uma empresa chinesa usando nossos smartphones. Tudo que existe e que nos sustenta como civilização são os elos sociais, estes constituem a base e a essência de tudo o que precisamos para sobreviver.

 

Desde o momento em que chegamos ao mundo começamos – mesmo que de forma arcaica – a nos socializar. Somos bebês indefesos nos braços de nossos pais, tias, avós; choramos quando estamos com dores ou com fome, gritamos quando não estamos contentes; nos expressamos usando nada mais que nossas linguagens corporais. Estamos então em contato com a primeira fase da socialização e da mais importante instituição social que existe: a família. Nesta primeira fase não possuímos ainda a habilidade da fala, mas com o tempo e a convivência aprendemos nossas primeiras palavras, depois começamos a formar frases e quando começamos a falar de verdade, é difícil para os adultos de nos silenciar. Adoramos a arte de nos comunicar do momento em que aprendemos a falar.

 

Com a fala tudo fica mais fácil, se estamos com dor de cabeça nós iremos falar desta dor em questão e não apenas chorar e espernear até que alguém descubra o que nós temos. Então, quando crescemos um pouco mais passamos para a segunda fase de socialização que é nosso primeiro contato com o mundo exterior ao núcleo familiar: o berçário ou escola maternal. Lá conhecemos vários indivíduos estranhos com os quais nós não estamos nem um pouco familiarizados. Temos que aprender a dividir um espaço físico com outras dezenas de crianças, o que muda muito de quando estamos em nossas casas onde geralmente temos todo o espaço exclusiva e unicamente para nós. Aprendemos a dividir, a compartilhar, a falar menos (porque as outras crianças também querem se expressar) e assim começa uma nova etapa em nossa vida. Somos parte integrante de duas instituições sociais fundamentais na formação não apenas do ser humano, mas do cidadão, do ator social.

 

A terceira fase está ligada com certas regras imposições que nos são impostas por estas duas instituições, se por exemplo na escola, temos uma piscina ou um campo de futebol, nós somos conduzidos e induzidos a praticar estas atividades. Se a família é de uma religião X, começamos também a frequentar os mesmos lugares de culto. E assim, nosso laços e instituições sociais que antes se resumiam a dois se multiplicam de uma só vez, a uma velocidade incrivelmente rápida. Também começamos nesta mesma fase a frequentar escolas de música, de dança, de teatro, de judô (ou outras artes marciais), de pintura e assim vamos tecendo aos poucos nossas habilidades e descobrindo nossas afinidades. E claro, cada uma destas atividades extraescolares que realizamos, está diretamente ligada em conhecer novas pessoas, aprender novas regras e normas, e assim abrimos um leque gigantesco em nossa capacidade de nos socializar.

 

A quarta fase seria a puberdade onde nós começamos a nos descobrir sexualmente, nos sentimos atraídos pelas pessoas que nos despertam interesses que antes nós nem imaginávamos que existissem. Geralmente nesta fase é uma batalha de sobrevivência na escola, temos a obrigação de sermos populares, de termos incontáveis amigas e amigos, de falarmos com todo mundo, de sermos os xodós dos professores. É uma fase da vida de competição, mas também de muita humilhação para aqueles que não se enquadram ou não veem necessidade de fazer parte de tudo aquilo. Paradoxalmente, é onde começamos de fato a envelhecer, começamos a desafiar as autoridades dos professores e dos pais, a argumentar contra alguns conteúdos e ensinamentos que nos são transmitidos tanto em casa quanto na escola. Desistimos – às vezes – das aulas de guitarra ou de ballet e começamos a nos dedicar e a nos identificar com novas práticas que têm mais ligações e pontos em comum conosco.

 

A puberdade é de fato uma fase extremamente delicada e ao mesmo tempo importantíssima para a formação do ator social. Nela começamos a explorar um novo universo, os adultos já não nos deixam de fora dos debates, e sim, somos pseudo rebeldes. Os hormônios também estão á flor da pele, explodimos facilmente, brigamos, choramos, namoramos, terminamos e depois recomeçamos tudo de novo. A adolescência é um caos, mas é também a fase que descobrimos que odiamos com todas as nossas forças as aulas de Física ou Matemática e que preferimos as aulas de História. É nesta fase que começamos a nos moldar para nosso futuro de acordo com nossas convicções e aptidões. Começamos também a adquirir uma certa liberdade de pensar e de escolher entre uma coisa ou outra. Estamos cheios de sonhos, vontades e desejos que nosso maior anseio é “crescer” ou “ser adulto”; pois bem, isto chega muito rápido e nós nem percebemos.

 

O termo que define da melhor maneira possível esta fase é: quantidade. Queremos de tudo e em grandes quantidades, queremos roupas demais, comida demais, festas demais…Tudo é fora de medida. E principalmente o que buscamos é aceitação demais e isto passa pela posse, pelo ato de ter, principalmente ter AMIGOS e AMIGAS demais. A quantidade prima sobre a qualidade. Nos sentimos forçados a sermos “populares”, a termos o tênis mais bonito, a roupa mais elegante, ou de sermos o melhor no futebol ou na natação. A adolescência é uma fase de acumulação indubitável.

 

Então nos livramos de tudo isso e chegamos enfim à fase adulta. Alguns vão direto trabalhar, outros vão frequentar o ensino superior, e é neste momento que começamos a entender que aquele amigo ou aquela amiga que nós conhecemos lá trás não estará ao nosso lado para sempre. Seguimos cada um nossos caminhos diversos e variados, que raramente irão se encontrar no futuro, ou quando se encontraram se resumem a conversas banais e corriqueiras, mas ainda não temos a total consciência de que “perdemos” e continuaremos a perder vários destes amigos e amigas ao longo da vida. Mas ao mesmo tempo que “perdemos”, paradoxalmente, é o momento do apogeu de nossa sociabilidade, é a fase que nós mais agregamos e conhecemos pessoas diferentes em nossas vidas.

 

Vamos à faculdade, conhecemos pessoas de universos diferentes e começamos a nos dividir em grupos menores, mais reduzidos e nucleares. É impensável, por exemplo, querermos realizar uma festa como a de nosso quinzes anos com 300 ou 500 pessoas quando chegamos à faculdade ou em nosso novo emprego. Nossos círculos sociais se reduzem gradativamente ao longo das fases da vida em relação a quantidade. Às vezes conseguimos guardar e manter amizades ou até mesmo relações amorosas com algumas pessoas que fizeram parte de nossas infâncias ou adolescências. E neste momento nós começamos a dar mais valor – ou o valor correto e devido – a estas pessoas que nós conseguimos conservar em nosso entorno.

 

Começamos então a primar pela qualidade da conversa e nos aproximar e firmar laços com outros atores sociais mais parecidos conosco e com nossos centros de interesse. É verdade que nos dias de hoje temos milhares de amigos virtuais graças às redes; temos centenas de seguidores, mas no fundo sabemos que tudo aquilo não passa de um universo virtual. Nós não nos socializamos nem com um décimo de nossos amigos de Facebook nem com nossos seguidores do Instagram, mas ainda assim estamos lá, conectados, plugados, ligados nas redes. É uma prática confortável se pararmos para pensar, não preciso sair do conforto do meu lar para curtir a foto de um amigo ou de um conhecido, posso também postar uma foto usando uma linda camisa nova e estar usando apenas uma cueca, ninguém verá a parte debaixo porque eu vou editar tal foto e esperar as curtidas. As redes sociais são cômodas e confortáveis, elas nos dão a possibilidade de sabermos o que aquele ou aquela amiga de infância se tornou hoje em dia sem que nós precisemos dialogar com a mesma.

 

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DISCORDO: O BRASILEIRO NÃO PRECISA “SER ESTUDADO”: PRECISA ESTUDAR

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Fonte: mapaeducacao.com/blog/dez-mudancas-urgentes-para-educacao-brasileira/

“Da escola que calcula à escola que faz pensar”

 

De memes a grandes reflexões, de piadas à seriedade; ouvimos constantemente a afirmação de que o “brasileiro precisa ser estudado” – ora, tenho que discordar totalmente de tal afirmação, seja ela apenas uma brincadeira ou levada a sério. A meu ver, a Educação (com um “e” maiúsculo e seu verbo “Estudar”) não pode ser motivo para piadas em hipótese alguma, educação não é e nem deve ser tratada e abordada como uma brincadeira.

 

O que de fato nos falta em nosso país é uma educação universal e acessível a todas e a todos, responsável, digna, coerente, gratuita e de qualidade bem mais superior do que os níveis atuais. O sucateamento da educação no Brasil é um problema enraizado e um tanto quanto complexo de se entender e por fim, de se modificar. É preciso ter coragem para afirmar que o sistema de educação no Brasil falhou e continua falhando, que seja nas escolas públicas ou particulares, notavelmente nos Ensinos básicos, fundamentais e médios, mas também não podemos deixar de mencionar o Ensino Superior que é tratado ou como sendo uma mercadoria pelos grandes grupos de universidades privadas ou como um espaço reservado para uma certa camada mais favorecida da população no que diz respeito às universidades públicas.

 

Lembro-me sempre muito bem de minha experiência pessoal pelo sistema educacional brasileiro – e hoje, com uma certa distância de tal sistema – posso afirmar que sofri e não foi pouco. Sempre gostava das matérias que pareciam brincadeiras ou que eram julgadas inúteis por meus colegas de classe: Artes, História, Redação, Geografia, Filosofia, Sociologia… Mesmo adorando essas matérias e tendo uma enorme aptidão para cada uma delas, ainda assim eu estava lá, sendo forçado, obrigado a solucionar os teoremas matemáticos mais complicados, a calcular a velocidade e os vetores nas aulas de Física, a balancear equações químicas e assim por diante; e não havia outra opção, eram duas aulas de História na semana contra OITO de Matemática, por exemplo.

 

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NADA DE NOVO NO FRONTE

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   Ovacionado por algumas centenas, esquecido por alguns milhares, menosprezado por milhões, motivo de chacota internacional, prova de amadorismo e conservadorismo; e uma sedenta e incansável vontade de disseminar o ódio: domingo passado, no dia 1º de janeiro tomava posse o novo Chefe de Estado Brasileiro, Jair Bolsonaro. Muitos analistas e cientistas políticos julgaram a cerimônia como sendo um grande fiasco em comparação com as posses de presidentes anteriores; admito que preciso discordar de tais opiniões, pois o ódio imperava em Brasília naquele domingo não tão distante.

 

   Um discurso recheado de promessas vãs e incompreensíveis, a presença de um tradutor de libras negro – para acalmar a oposição e desconstruir a imagem do “ex-candidato racista – uma primeira dama “quebrando o protocolo” e discursando antes do Chefe de Estado – outra falha tentativa de mostrar que Bolsonaro não é machista, misógino e para tentar apaziguar mulheres, meninas, homens e meninos que lutam pelos direitos das mulheres; um verdadeiro espetáculo midiático para desconstruir a imagem que o próprio presidente criou de si mesmo durante seus anos como parlamentar e depois como candidato.

 

   Tudo o que ocorreu na investidura de Bolsonaro não passa de um processo socialmente construído visando uma utópica união das brasileiras e brasileiros, mas o recém  empossado presidente parece não compreender que nunca houve união entre nós, que não foi um partido que criou a polarização política e ideológica em nosso país; isso já existe há muito tempo, há tanto tempo que eu ousaria a dizer que a não unificação do Brasil existe antes mesmo deste último carregar para si tal nomenclatura. Somos todos tão singulares, diferentes, com bagagens culturais, trajetórias pessoais únicas e formações éticas e morais diversas; somos ricos e pobres, negros e brancos, índios e europeus, asiáticos e árabes; somos uma miscigenação complexa e extravagante. Esse fato nos leva a defender nossos próprios interesses do grupo do qual pertencemos, tornando inviável a união homogênea e unânime de nossa nação e povos que nela habitam. Não Bolsonaro, você não poderá unificar o Brasil; você não deve governar para as maiorias porque elas simplesmente não existem, somos o aglomerado de centenas de minorias – por isso não conseguimos constituir “uma maioria”.

                                                                   ***

   O grande momento da posse para mim foi o discurso no parlatório do Palácio – confesso que até agora não consegui digerir as palavras pronunciadas pelo presidente ao final de sua declaração – uma prova ímpar de ignorância e um discurso populista prometendo libertar o Brasil do socialismo. Isso mesmo, não sei em que época ou eu quem governo, nós brasileiras e brasileiros, vivemos em um regime socialista. Eu – talvez – tenha ficado em coma nesse período e não me atualizei…? Mais uma vez Bolsonaro fez prova de sua mais profunda e crua ignorância, porém o pior de tudo isso é que tal pronunciamento soou como uma melodia de Debussy nos ouvidos daqueles que acreditam que nós já vivemos uma era socialista em nosso país; aplausos…

 

   O mais assustador desse pronunciamento presidencial foi a seguinte afirmação e comprometimento de Bolsonaro para com à nação brasileira:

“Essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela.”

 

   Infelizmente nossa bandeira já é vermelha, mas não uma bandeira socialista nem tampouco comunista, mas uma bandeira banhada de sangue de tantas brasileiras e inúmeros brasileiros que já morreram por amor ao país. Não precisamos de mais sangue, não precisamos de mais mortes, não queremos o sangue do novo governo para “mantê-la verde e amarela”; sangue demais já foi e é derramado diariamente. É tanto sangue que se espremêssemos a bandeira correria um rio vermelho. Tanto sangue inocente, policiais que morrem todos os dias, ativistas, mulheres, homens, crianças, idosos, negros, moradores de rua, trabalhadoras e trabalhadores em condições precárias, índios, refugiados, imigrantes, militares… Muitos já morreram, continuam morrendo tingindo cada vez mais nossa bandeira da cor vermelha.

 

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MMXIX

Um ano de mais “menos”.

Enquanto todas e todos desejam um ano de diversos “mais”, um novo ano cheio; eu desejo a todas e a todos um ano de menos

  • De menos intrigas;
  • De menos brigas;
  • De menos ódio;
  • De menos rancor;
  • De menos acúmulos;
  • De menos pressa;
  • De menos negatividade;
  • De menos divergência;
  • De menos guerras;
  • De menos conflitos;
  • De menos medo;
  • De menos superficialidade;
  • De menos inveja;
  • De menos luxúria;
  • De menos ostentação;
  • De menos intolerância;
  • De menos tristeza;
  • De menos morte;
  • De menos desmatamento;
  • De menos fúria;
  • De menos falsos amores;
  • De menos falsos pudores;
  • De menos hipocrisia;
  • De menos falsas harmonias;
  • De menos coisas;
  • De menos desequilíbrio;
  • De menos gastos e desgastes;
  • De menos consumo;
  • De menos tragédias;
  • De menos injustiças;
  • De menos descaso;
  • De menos machismo;
  • De menos homofobia;
  • De menos transfobia;
  • De menos racismo;
  • De menos xenofobia;
  • De menos abatedouros;
  • De menos agrotóxicos;
  • De menos massacres;
  • De menos falsos profetas e messias;
  • De menos exageros;

Que este ano seja minimalista, que vivamos somente com aquilo que nos é necessário; que seja vazio de tudo que não precisamos… Que nossas necessidades sejam suprimidas correta e conscientemente, precisamos nos dar conta de quê já temos muito, já acumulamos, já gastamos, usamos, exploramos, torturamos, infligimos males, brigamos… DEMASIADAMENTE. O único caminho para à nossa sobrevivência é o caminho do menos, do menos de tudo que já possuímos: materialmente ou não, dentro ou fora de nós.

 

J.G.P.A – 01/01/2019 – Americana, SP – Brasil

 

MMXVIII: UM ANO MARCADO DE “ENCONTROS & DESPEDIDAS”.

 

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O que eu aprendi neste ano.

Nem tudo o que aconteceu foi totalmente ruim, muitos fatos bons marcaram o meu ano de 2018, e aqui, neste último texto que entrego a vocês minha trajetória e meus caminhos percorridos ao longo do ano. Meu ano começou com uma despedida intensa, mesmo já estando habituado com este tipo de despedida: a morte. Dia primeiro de janeiro de 2018, lá estava eu, na França, com amigos preparando o primeiro almoço do ano, tomando vinho, cerveja, contando piadas e me divertindo; o celular da empresa toca – sim, eu estava de plantão. Precisava de toda urgência reganhar a cidade de Lyon – que ficava a mais ou menos uma hora de onde eu estava para ir no domicílio de uma família: um defunto me esperava. Na época eu trabalha como Responsável de Agência Funerária, mas minhas funções iam muito além, fazia plantões e permanências telefônicas quando ninguém queria fazê-las, carregava corpos dos hospitais, das casas ou de qualquer outro lugar onde o óbito havia acontecido, para os necrotérios; desempenhava também o nobre papel de “mestre de cerimônia” para acompanhar a família do começo ao fim, para oferecer o melhor do meu serviço e da minha pessoa (passando muitas vezes por cima das “lógicas de metas e rentabilidade” estabelecidas pelo patrão). Usava do meu lado sensível e humano para ajudar ao máximo uma família que acabara de perder um parente. Considerado como um subemprego, de todos os que eu realizei até o dia de hoje, este foi o melhor, o mais humano…

 

Morte súbita; infarto; levara o pai, avô de família naquele primeiro dia de 2018, e eu estava lá, usando meu terno preto, minha gravata preta e – apesar da correria – tive tempo de lustrar meus sapatos; não podia chegar na casa de um família onde havia um ex-vivo trajando qualquer vestimenta, tinha que ser apropriada para tal evento. Para muitos que contei essa anedota a reação foi de choque, de espanto, para mim foi uma experiência incrível da qual nunca me esquecerei. Naquele momento percebi que tinha suprido todos os desejos da família para realizar todos os seus desejos para que, com dignidade, amor e compaixão pudessem se despedir de seu defunto da maneira mais honrada; pensei: quero fazer este trabalho toda minha vida (mal sabia eu que posteriormente a minha trajetória mudaria de forma brutal).

 

Dia 18 de janeiro de 2018, primeiro dia do ano que iríamos receber uma estagiária aquele ano, estava ansioso, pois adorava contar anedotas sobre o trabalho (ainda adoro) e passar para frente o que eu sabia fazer, minha visão do ramo funerário, meu “savoir-faire”. Loira, vestida inteiramente de preto – exceto por um lenço que usava no pescoço, que este, era branco – fiquei imobilizado, não sabia reagir, era até mesmo difícil pronunciar as palavras “Bom dia” ou “Seja bem-vinda, meu nome é João”. Foi a primeira paixão, o meu primeiro amor de 2018.

 

Maèva era seu nome, no final do primeiro dia de seu estágio, já tínhamos recebido duas famílias, carregados dois defuntos, conversado muito. Terminamos lá pelas nove horas da noite; dividimos algumas mexericas e bananas que o patrão tinha nos deixado. Nos despedimos com um beijo úmido em nossas bochechas; e naquela mesma noite conversamos por horas e horas – até um de nós dormir, não me recordo se foi ela, ou eu – por mensagem. Na sexta-feira daquela semana, fomos até um pub para comemorar o fim de sua primeira e intensa semana de estágio; foi lá onde demos nosso primeiro beijo. Quando fui trabalhar no sábado, estava possuído por uma energia e motivação que não tinha tida há muito tempo, e Maèva não cessava de me mandar mensagens. Até que – para minha surpresa – umas 16h30 Maèva chegou na agência, trazendo doces, chá, conversamos até a hora de fechar a loja, e lá no fundo, na salinha de depósito da agência fizemos o que eu já esperava que iríamos fazer…

 

Estava profundamente apaixonado, enviava cartas à Maèva, saíamos sempre que possível para tomar uma cerveja; até o dia em que ela me revelou que namorava uma pessoa e que morava com ela e por isso não podíamos nos ver em sua casa. Pouco me importei com este fato, pois o amor que eu sentia era grande demais e nada iria atrapalhar isto: cego de amor. Daí pra frente o declínio começou, no trabalho nós sempre tínhamos nossos momentos juntos, entre os cadáveres, nas horas de almoço, mas ficava cada vez mais difícil e raro de vê-la durantes as noites. Seu estágio acabara e ela me presentou com livro de mais de 1200 páginas, que assinou e escreveu as seguintes palavras “Essa é sua chance de me conhecer melhor”; nunca li tão rápido um livro em minha vida.

 

Não sabia que seria a última vez, fomos para a minha casa e fizemos amor a noite toda, bebemos vinho, conversamos, fizemos até planos para o nosso futuro; ela estava determinada a deixar seu namorado para ficar comigo. Tudo estava planejado. Mas eu precisava trabalhar no dia seguinte; cheguei atrasado, porque Maèva não me deixava ir embora, não me deixava sequer sair da banheira. Um último cigarro e um xícara de café, e fomos embora. Ela estava com medo de chegar em sua casa, pois seu namorado estaria à sua espera. Não tive notícias dela por dois ou três dias; mas logo depois ela voltou para concluir seu estágio, com um olho roxo… Por mais que ela me falasse para não me preocupar e me contasse mil versões diferentes daquela história, eu sabia o que realmente tinha acontecido. Foi num sábado, pouco tempo depois daquela segunda-feira marcada pelo olho roxo que ela me convidou para ir à sua casa; cheguei cedo, estava de folga. Deitamos em sua cama, era a última vez que dividíamos uma cama juntos.

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XIII – XI – MMXV

 

 

 

 

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Crédito imagem: LePoint.fr –  “Prefeita de Paris, Anne Hidalgo e o Primeiro Ministro Francês, Édouard Philippe”

Há exatos três anos nesta mesma data, na França, ataques terroristas aconteciam durante a madrugada. Tiroteios e sangue dominavam o cenário da capital francesa, Paris. Dentro de uma sala de espetáculos onde jovens aproveitavam de sua noite de fim de semana junto aos seus amigos, amores, familiares; atiradores entraram na sala e transformaram um show de música em banho de sangue. No Stade de France, uma bomba foi explodida no exterior do mesmo, nas ruas, atiradores faziam vítimas aleatórias pela cidade, miravam e tiravam vidas de parisienses e turistas que aproveitavam aquela noite nas charmosas ruas da cidade da Luz.

Enquanto tudo isso acontecia, lá estava eu, num vilarejo remoto não muito distante da cidade de Lyon, dormindo. E durante a madrugada meu celular começou a pipocar de notificações e a cada minuto que se passava mais informações chegavam e o número de vítimas só aumentava. Voltar a dormir naquela noite era difícil, quase impossível, mas o pior de tudo foi acordar na manhã seguinte e perceber que de fato – aqueles acontecimentos bárbaros e violentos – não faziam parte de um sonho, era a mais pura e vívida realidade. Juntamente com o país inteiro eu acordei com um enorme vazio dentro do coração e uma profunda tristeza por causa dos ataques e do número de mortos e feridos que se atualizavam a cada instante na televisão.

Tristeza e incompreensão, medo e incertezas, esses eram os sentimentos que tomavam conta de mim; dormir em paz em um dia e acordar na manhã seguinte com o país inteiro em choque e banhado de sangue, não existe nada de mais horrível e detestável nesse mundo. Três anos depois e mesmo assim, cada vez que eu fecho os olhos e deixo-me carregar para aquela aurora vermelha de sangue, a tristeza me domina; sinto-me incompleto, como se tivesse perdido uma parte do meu ser, do meu “eu” naquela noite.

Em memória de todas as vítimas, familiares, amigos, parisienses, franceses, e de toda a juventude do mundo, expresso os meus sentimentos e pêsames mais sinceros e profundos!

À la memoire de tous ceux qui sont tombés le 13 novembre 2015, à leurs proches, à leurs familles, aux parisiense, et à toute la jeunesse du monde, j’exprime mes sentiments et condoléances les plus sincères et profondes!

 

J.G.P.A – 13/11/2018 – Americana, SP – Brasil

 

O MUNDO ATRAVÉS MEUS OLHOS

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Crédito foto: João Guilherme Pozzi Arcaro

Uma insólita autobiografia….

A proposta dessa sessão é apresentar ao público uma autobiografia expondo fatos e acontecimentos que me marcaram durante minha trajetória. Mostrar a influência e importância de cada uma das experiências pessoais e profissionais na formação do meu “ser”, da minha forma de pensar e agir. Tenho a convicção de que a vida é feita de momentos, ações completadas ou não, enfim, que a personalidade e a formação de uma pessoa são de fato o aglomerado de lembranças que nos conduz a desenvolver um determinado “modus operandi” no interior da sociedade na qual vivemos e participamos ativa ou passivamente.

 

Uma autobiografia onde não irei abordar cada uma destas experiências de forma cronológica, pois fatos marcantes acontecem a todo momento e, por isso, devem ser compartilhados conforme a inspiração do momento. Desejo dividir meus elementos biográficos com o público para facilitar, de certa forma, não apenas a leitura e compreensão de meus escritos, mas, igualmente, fazer com que o público entenda minha forma de racionalizar, observar e viver no mundo.

 

Por esta razão, convido os leitores a participarem comigo com suas experiências e pontos de vista, pois, cada indivíduo tem um olhar específico e único do mundo em que vive. A questão que será aqui exposta está longe de ser baseada em julgamento de valores ou opiniões tendo em vista que uma sociedade pode sim ser unida em sua diversidade. Por isso o respeito da opinião alheia é primordial para o bom funcionamento desta sessão.

 

Vivemos em um mundo onde não há tempo para debater, discutir e criar espaços dedicados ao diálogo, nos contentamos em ler a primeira página de um jornal, ou unicamente ouvir a chamada dos telejornais durante os comerciais da novela ou de nossos programas prediletos. Não somos capazes de dividir nossas felicidades ou nossas angústias, vivemos em uma sociedade que não nos permite dizer “não estou bem”, não há espaço para tristeza, não há tempo para ouvir a dor do outro e confortá-lo. Paradoxalmente, passamos horas e horas nas redes sociais publicando fotos daquilo que fazemos ou que estamos fazendo naquele exato momento, há tempo para imagens, para máscaras e fachadas; uma foto com um sorriso e todos acreditam que tudo está bem evitando-se desta forma qualquer diálogo. Nos afirmamos constantemente, mas nunca deixamos o outro entrar em nossas vidas.

 

Estamos nos tornando cada vez mais individualistas. Nos contentamos – infelizmente, ouso dizer – em viver de aparências. Então proponho-me a relatar a vocês minhas experiências, “O MUNDO ATRAVÉS MEUS OLHOS” no intuito de ir além das imagens e entrar na profundeza da essência de um ser e de um estar…

Quem sabe desta maneira não conseguirei – eventualmente – motivar e incentivar mais e mais pessoas a repartirem suas vivências?