INSÓLITO RENDEZ-VOUS

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Cemitério da Saudade, Americana – SP, Brasil. Foto: João Guilherme Pozzi Arcaro

 

Dizem que quando estamos ali, frente à frente com Ela, somos capazes de ver nossas vidas passarem como um filme projetado numa grande tela de cinema face a nossos olhos. Que podemos ver – de certa forma – tudo que vivemos, nossas recordações, nossos medos e amores, tristezas e alegrias… nos últimos instantes antes que Ela nos leve uma vez por todas.

Dizem tanta coisa a seu respeito.

Falam de sua frieza e de seu caráter impiedoso.

Do medo que Ela nos inflige.

Que somos dotados da capacidade de voltar no tempo; de viver mais uma vez toda nossa existência – em frações de minutos. E só quando terminamos de assistir a este filme, aí sim podemos partir em Paz e Harmonia com Ela e conosco. Ora, nada disto é verídico; não existe uma projeção do passado, não existe dor nem tampouco amor, tudo que há neste momento crucial que nos separa de nossas vidas carnais e espirituais é um longo diálogo – porém seja mais apropriado usar o termo “julgamento” -; calor e ternura são seus principais traços; Ela tem sabedoria, porque sabe mais do que todos nós reunidos, Ela nos antecede; creio eu que sua presença é muito mais anciã do que a Vida.

 

Sábia e sem sombra, mas nada de foice em uma de suas mãos; e sim, Ela tem um rosto, ou melhor, seu rosto é um espelho, é o meu, o teu, o nosso, o de cada um que a encara. São poucos que têm essa oportunidade de relatar o que eu estou prestes a vos dizer, porque quando vamos ao seu magistral encontro, raramente voltamos.

 

Mas Ela erra mesmo não sendo humana, está também à mercê de seus próprios equívocos; acredito que esteja bem cansada, carrega em seus ombros uma fadiga incomparável; é a única que tem esse supremo poder de nos carregar, embora Ela tenha me dito que as cousas não são bem assim:

 

– Nunca carreguei ninguém – indagou – apenas estendi minha mão a todas e a todos, e sempre me acompanharam de pleno e bom grado.

 

Talvez seja a hora de desmistificar o que nos contaram sobre Ela até hoje, sei que parece assustador e penso que muitos de vocês ainda não estão preparados para mergulhar nessa história; muitos não irão sequer acreditar. Mas se estou aqui – escrevendo estas palavras e linhas – é porque sou fruto de um de seus erros, não segurei sua mão para viajar ao além, mas não foi ela quem me poupou, apenas não era o meu momento, não ainda.

 

Essa é a minha história com Ela; talvez outras pessoas tenham outras versões – algumas destas afetadas pela Morfina ou outros medicamentos que as deixaram grogues e sem discernimento entre o que era real e o que era fruto da imaginação. Todavia, como posso saber se eu estava realmente no meu estado de sobriedade absoluta? Como posso vos garantir isto? Não há garantia, talvez tudo tenha sido apenas um singelo rebento de minha fértil inventividade…

 

Vamos ao que aconteceu – ou pelo menos – no que eu acredito que tenha acontecido naquela noite fria; ao som dos raios e sentindo o peso das gotas d’águas – reluzentes como pérolas no escuro da noite. Lá estava eu, divagando em meus pensamentos mais alegres e harmoniosos e subitamente fui dominado por outros tipos de pensamento, aqueles que nós evitamos enquanto o Sol reina ao longo do dia. Insônia.

 

Nada podia me fazer dormir, nem ao menos cochilar, nem por um minuto sequer.

 

Mente e coração: inquietos. Os batimentos deste último se misturavam como uma perfeita orquestra – com seu barulho de percussão – com as gotas de pérolas que caíam dos céus. Então fui até a cozinha, eu, meu coração e a chuva. Fiz um chá na tentativa de me acalmar e poder encontrar novamente o sono. Em vão.

 

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L’ABANDON DES MORTS

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Je vois l’incontournable nécessité d’apporter à la « table » le sujet suivant – d’un côté tabou mais aussi marginalisé – dans notre société : la mort.

 

Il peut paraître difficile parfois, cependant nous devons accepter qu’un jour nous allions tous mourir, ce fait prouvé par la biologie, peut-être un peu moins par certaines religions qui croient dans « l’au-delà » ou dans la « vie après la mort ».

 

Or, ce qui m’inquiète le plus profondément, ce n’est pas le fait de comment nous abordons la mort dans notre société, mais comment nous prenons soin ou non – de la manière la plus appropriée – de nos défunts.

 

Je prends comme exemple le Cimetière du Regret (« Cemitério da Saudade ») d’Americana ( São Paulo, Brésil). Il est désolant quand je m’apaisais que le lieu – qui est par définition un endroit de repos, paix, soins et surtout de mémoire et histoire – reste à la dérive, touchant quasiment l’abandon complet.

 

Les tombes et les stèles qui portent les plus diverses histoires des habitants d’Americana sont là, elles crient au secours. Quelques-unes déchirées, tombées, oubliées. Des traits de notre histoire et des multiples trajectoires de chaque citoyen qu’un jour participa d’une manière ou d’une autre de la vie de la ville.

 

Laisser le cimetière être dominé par les herbes qui poussent entre les petits chemins de ce dernier, le manque d’entretien et de main-d’oeuvre et enfin la négligence et l’abandon d’un endroit où non seulement nous « conservons » nos morts, mais également nos mémoires.

 

Notre identité est là, enterrée. Les piliers des fondateurs d’Americana reposent dans le regret, mais en même temps dans l’oubli et négligence. Le fait de ne pas prendre soin comme il faut de cet endroit implique inexorablement que nous sommes voués à oublier le passé et nos origines.

 

J.G.P.A – 10/01/2019 – Americana, SP, Brésil –  ” Le raconteur d’histoires”

pour le journal ” O Liberal” 

 

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*Titre original: ” Une société qui ne s’occupe pas de ses morts est vouée à tomber dans l’oubli”

O ABANDONO DOS MORTOS

 

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“Opinião”: Jornal “O Liberal” – “O abandono dos mortos”

 

 

Vejo a incontornável necessidade de trazer à pauta este assunto – um tanto quanto tabu como marginalizado – em nossa sociedade: a morte. Por mais difícil que seja nós temos que aceitar que um dia todos iremos morrer; fato comprovado pela Biologia, talvez um pouco menos para algumas religiões que acreditam no “além” ou na “vida após a morte”.

 

Mas o que me preocupa profundamente não é o fato de como abordamos a morte em nossa sociedade, e sim, como cuidamos ou deixamos de cuidar de maneira apropriada de nossos defuntos.

 

Tomo como exemplo o Cemitério da Saudade de Americana. É entristecedor quando percebo que o lugar – que é por definição um local de descanso, paz, cuidado e acima de todas as coisas: de memória e História – está à deriva, beirando o abandono. Túmulos e lápides que carregam as diversas histórias dos habitantes e da cidade de Americana estão lá, gritando para serem socorridas. Algumas despedaçadas, caídas, esquecidas.

 

Traços de nossa história e das múltiplas trajetórias de cada cidadão que um dia participou de uma maneira ou de outra da vida da cidade. Deixar o cemitério ser dominado por ervas daninhas que crescem no meio das estreitas ruelas do cemitério, a falta de manutenção e mão de obra e por fim o desleixo e abandono de um lugar onde não apenas “conservamos” nossos mortos, mas nossas memórias.

 

Nossa identidade está lá, enterrada. Os pilares dos fundadores de Americana, descansam na Saudade, porém, igualmente no esquecimento e na negligência. O fato de não presarmos pela conservação do local implica inexoravelmente que estamos fadados a esquecer o passado e nossas raízes.

 

J.G.P.A – 10/01/2019 – Americana, SP – Brasil ” O contador de histórias” ,

para o Jornal “O Liberal”

 

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*Título original: “UMA SOCIEDADE QUE NÃO CUIDA DE SEUS MORTOS ESTÁ FADADA AO ESQUECIMENTO”

A CARNE MAIS BARATA DO MERCADO

A CARNE MAIS BARATA foto
Almoço em família – Fonte:meubistro.com/blog

 

Era domingo, a família estava reunida em plenitude e harmonia para a sagrada confraternização de todo domingo – era um ritual – que não podia passar em branco. Não importava o tempo que fazia, se estava sol ou chovendo, quente ou frio, o mais importante de tudo era de fato a reunião familiar.

 

Cada membro com suas particularidades e costumes únicos; agiam. Uns preferiam uma cerveja, outros optavam por um vinho ou até mesmo uma caipirinha, bem gelada. Era um hábito tão corriqueiro que não havia necessidade de se expressarem com palavras para saber quem ia fazer o quê, quem iria trazer a bebida, a comida, o protocolo já fazia parte do automatismo do ritual. Os mais jovens iam brincar de peão, bola, soltar pipa, correr no jardim, e sempre tinha no mínimo um ou dois que caíam de bicicleta e por fim, no meio de lágrimas e mercúrio sempre tinha uma das tias que estava lá cuidando dos joelhos ralados e dos arranhões que as crianças iam – de forma nada sutil – adquirindo ao longo do dia de domingo.

 

Obviamente, nem tudo era exatamente da mesma forma, de vem em outra, o mercúrio ardido da tia não resolvia quando uma das bisnetas caía d’uma das árvores e quebrava o braço ou a perna; aí só o doutor poderia resolver tal impasse. As conversas eram sempre boas, as risadas presentes, mas nem todos partilhavam das mesmas opiniões e crenças – o que gerava – inúmeras vezes discussões quase virulentas ao ponto de alguns primos irem embora antes mesmo do almoço ser servido. Mas não tinha sequer o menor problema, pois todos estriam lá no próximo domingo, no seguinte, no outro, e assim por diante; nada podia abalar a união familiar; nem mesmo as divergências no campo da política ou da preferência por um ou outro time de futebol…

 

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CEM ANOS DEPOIS… E NUNCA ESTIVEMOS TÃO PERTO DAS TRINCHEIRAS – PARTE IV E FINAL

PARTE IV: Profecias apocalípticas… e agora?

 

Acredito que não exista um assunto que seja tão explorado de diversas formas e maneiras como o fim do mundo, da Humanidade. Filmes trazem seus efeitos especiais mais sofisticados para retratar os desastrosos acontecimentos que poderiam acontecer em nosso planeta caso o fim do mundo chegasse. Ondas gigantescas, chuva de meteoros, aquecimento global, desaparecimento das espécies – tanto da fauna como da flora – e por fim a extinção da raça Humana. Livros – abordam igualmente este assunto – e muitos artistas consagram seu tempo para imaginar, retratar e mostrar de suas respectivas maneiras o tão “esperado” (?) fim do mundo…

Mas o assunto está tão “à la vogue” e sempre esteve, pode parecer clichê, mas como dizem, “tudo o que tem um começo tem um fim”. Cientistas, intelectuais, pensadores, filósofos, biólogos, climatologias, historiadores entre outros estudiosos do planeta e da Humanidade tratam deste assunto também há muito tempo; talvez o momento tenha chegado para começarmos a nos preocupar realmente com o APOCALIPSE, indo além da ficção e levando em consideração dados científicos e embasamentos históricos para confirmarmos e defendermos a tese da extinção das nossas civilizações; está – ou talvez até tenha passado da hora – de refletirmos e agirmos sobre tais questões com mais seriedade e veracidade do que as cenas que vemos nas grandes telas de cinema, retratando com magistralidade e um certo toque romântico as teorias do fim do mundo. Talvez o fim não seja como num filme onde o herói beija pela última vez sua esposa e filhas e parte para o espaço para colonizar e construir uma nova civilização em outra planeta, levando em conta os erros cometidos pelos humanos na Terra, e nesse cenário, bilhões de pessoas ficam para trás e têm as mais diversas e trágicas maneiras de morrer.

 

 

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CEM ANOS DEPOIS… E NUNCA ESTIVEMOS TÃO PERTO DAS TRINCHEIRAS – PARTE III

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“O reflexo de um país,” Rio de Janeiro, Brasil, 2015. Paul Clemence

Parte III:  Uma luta de classes “à la brasileira”, por favor!

 

Como foi defendida nas duas partes precedentes desta sequência de reflexões, esta terceira parte trará uma reflexão focada no Brasil e na luta de classes que impera em nosso país. Considero que esta luta é a única que seja verdadeiramente legítima e ao mesmo tempo interminável, pois ela está no princípio de todos os conflitos que conhecemos no Brasil e no mundo. Todas as guerras podem ser resumidas entre dois grupos (cada um com sua estranheza e seu toque heterogêneo): opressores de um lado do fronte lutando e travando batalhas contra os mais fracos, os desmunidos, os marginais, em outros termos, contra àqueles que não possuem os conhecimentos e os meios de produção, estes são os oprimidos, que por sua vez representam a maior parcela da população brasileira social e estatisticamente falando.

 

 

O opressor possui todos os meios e forças necessárias para garantir sua soberania e poder sobre a classe dos oprimidos, ele tem o conhecimento, a força de manipular massas e os meios de produção, desta forma os oprimidos são eternamente sujeitos a se submeterem à classe opressora; eles não têm nenhuma saída, nem tampouco um plano B, são totalmente dependentes do opressor. Porém, esta relação entre opressor/oprimido não pode ser considerada – em termos biológicos – como uma simbiose, mas sim, como uma relação parasitária. O opressor precisa da classe oposta para criar, produzir e acima de tudo: acumular riquezas. Do outro lado, o oprimido precisa estar à mercê de todas as condições impostas pela primeira classe para garantir sua subsistência. O parasita ou opressor, tem pleno conhecimento desta situação e sabe que se um oprimido não cumprir suas exigências ele tem à sua inteira disposição um exército de oprimidos para colocar no lugar daquele que se rebelou ou não aceitou tais condições. Então, ele usa, abusa e explora o oprimido até seu esgotamento (exatamente como faz um parasita) e quando este está totalmente gasto, ele simplesmente migra para outro corpo que também irá utilizar até seu desgaste final; o parasita em si, não mata diretamente seu hospedeiro, mas quando este último não lhe serve mais, ele simplesmente encontra outro hospedeiro, e assim o vírus opressor continua a se proliferar infinitamente.

 

 

Se olharmos na História podemos observar a construção social de uma classe intermediária, dos comerciantes, burgueses, enfim, uma classe que mudou de nomenclatura diversas vezes, para simplesmente se distinguir da classe dos oprimidos. Mas nessa pirâmide social não existe um espaço mediano no meio, ela é simplesmente composta de uma larga e extensa base de trabalhadores de todos os tipos e áreas de atuação, e uma ponta fina, minúscula e reservada a um grupo seleto e poderoso que ocupa a posição mais alta da pirâmide e comanda a sociedade como ela bem o deseja. A dita “classe média”, existe unicamente na teoria, entretanto, na prática a história é outra, ela é inexistente. Esta construção social serve única e exclusivamente para diferenciar o pobre (financeiramente falando) daquele que possui um pouco mais de meios; porém mesmo com uma grande diferença financeira entre estes dois grupos, os dois são partes integrantes da classe dos oprimidos. Em suma, apenas duas classes existem na nossa sociedade: a rica e a pobre, não há uma outra classe intermediária.

 

 

No Brasil a diferença de meios e de poder entre as duas classes é escancaradamente gigantesca, sendo a origem de tanta violência, guerra e conflitos em nosso país. A distribuição de renda no Brasil é absurdamente falha: “poucos com muito, muitos com pouco”; assim se resume a situação socioeconômica no Brasil.

 

 

Os ricos fazem parte da classe dominante e isso acontece em grande parte pela falta de manutenção e de controle sobre a taxação de heranças e patrimônios, fazendo assim com que a classe dominante sempre permanece no poder, no comando. Enquanto isso o pobre continuará sendo oprimido, pode até ser que ele consiga melhorar seu padrão de vida, seu poder aquisitivo, mudar de um bairro para outro, mas estará condenado à vida a servir a classe opressora. Aqui está a cartada de mestre dos poderosos: eles fazem com que os pobres acreditem que estão progredindo e crescendo social e economicamente na vida, desta forma, eles conseguem evitar rebeliões e manifestações da classe trabalhadora contra sua soberania opressiva; o novo ópio do povo no Brasil atual é: poder comprar um celular, um carro, uma casa própria e viajar uma ou duas vezes ao ano e, em seguida, voltar ao ofício.

 

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TIC – TOC

 

O costume da procrastinação.

 

Nossa, já estamos no mês de dezembro! O fim do ano está aí. Como passou rápido!” Quantas vezes já ouvimos e ainda ouviremos afirmações como estas, seguidas de tons de desespero, ansiedade, motivações vazias, resoluções que se dizem “mágicas” – “Vou fazer diferente ano que vem, irei mudar isso e aquilo…, mas só ano que vem, agora não.” É inegável que – temporalmente falando – o ano está chegando a termo, não posso contra argumentar tais fatos, porém, talvez seja esse o momento para entrarmos em uma reflexão sobre o tempo.

 

 

Estamos tão habituados – somos de certa forma – artistas, mestres da arte da procrastinação, deixamos tudo, ou grande parte dos nossos afazeres, para o último momento; nossa referência é o “prazo final” e assim seguimos nossas rotinas, corriqueiras e corridas; frenéticas. E postergamos de uma maneira incrível nossos deveres, obrigações e lazeres. Esperamos o fim chegar para tomarmos algumas atitudes; aguardamos o dia de Finados para irmos ao cemitério, o aniversário para presentear alguém, uma outra data importante para beijarmos, abraçarmos e pronunciarmos palavras que deveriam ser mais comuns em nossas vidas, como por exemplo, eu te amo ou parabéns; somos, na maioria do tempo, críticos com nós mesmos e também com os outros, mas ainda não aprendemos a sermos INCENTIVADORES.

 

 

Vivemos como engrenagens de uma grande máquina de produção, seguimos nossas rotinas banais, sem darmos a devida importância para o que realmente importa nas nossas vidas. Acordamos, tomamos nosso café, nos dirigimos ao trabalho, reclamamos do trânsito no regresso à casa, desperdiçamos incontáveis horas atrás de telas, sejam elas de computadores, celulares, televisões, e esquecemos assim da vida real, pois a vida virtual é uma zona de conforto que vicia. Não há motivo nem tampouco propósito em visitar aquele amigo ou primo que mora a alguns minutos ou a algumas horas de nossos lares, pois podemos simplesmente mandar uma mensagem, virtual. Convivemos e passamos mais tempo com nossos aparelhos, com nossas máquinas, ou como se diz “gadgets”, que estamos não apenas nos tornando vítimas e reféns de tais apetrechos, mas estamos NOS tornando e vivendo, e transformando nossas humanidades, nossas essências e existências em máquinas…Aos poucos estamos perdendo a capacidade de sermos sociáveis e de cultivarmos a arte do diálogo, das risadas verdadeiras ( que vão bem além de um “kkkkk” ou um emoji); e paralelamente – e de certa forma, paradoxalmente – pesquisadores e cientistas desenvolvem a cada dia que passa robôs e maquinários dotados da inteligência artificial quando as nossas próprias inteligências, capacidades e vivências se tornam igualmente ARTIFICIAIS.

 

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CEM ANOS DEPOIS… E NUNCA ESTIVEMOS TÃO PERTO DAS TRINCHEIRAS – PARTE II

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Pintura por Pedro Américo – A Guerra do Paraguai

Parte II: As atuais trincheiras brasileiras.

 

Vivemos em um cenário de guerra e conflito constantes, nenhuma teoria, pensador, filósofo, sociólogo, ou seja lá qual for a especialidade de tal indivíduo pode negar essa afirmação. No caso específico do Brasil a guerra que vivemos é interminável, mortífera e assustadora. Ela não está confinada nos morros ou em centros urbanos abandonados, ela faz parte do cotidiano de cada brasileira e brasileiro, habitante do Leblon ou da Rocinha, do Jardins ou de Teresópolis, ninguém está ao abrigo do conflito que impera e domina a terra tupiniquim.

 

Polícias patrulham cada esquina e bairro, câmeras de segurança são instaladas juntamente com alarmes e todo e qualquer tipo de proteção. Mulheres andam nas ruas com medo, jovens perambulam com a sensação de insegurança; viver no Brasil é de fato – a título comparativo – pior do que na Savana onde precisamos escolher entre matar ou morrer. Afinal, quem são os inimigos desse conflito fatídico e mortífero no nosso país? Quais são os dois lados? Quem é amigo de quem? E quem é o inimigo?

 

A guerra que aqui existe não é dividida em apenas dois polos como uma partida de futebol onde um time joga contra o outro: o conflito é aqui é de todos contra todos! É o da mulher que batalha para conquistar direitos numa sociedade misógina e machista, é o da comunidade negra que compõe 54 por cento da população que ainda não libertou da escravidão do preconceito, é o da comunidade LGBT+ que é massacrada em nosso país com números assustadores ( no Brasil a homofobia é tão opressiva que se mata mais gays, lésbicas, transexuais, bissexuais do que em 13 países em que relações homoafetivas são consideradas CRIME por lei), é o conflito também do pobre, do trabalhador (operário ou do campo) que a cada dia só perde direitos e saúde em prol da engrenagem capitalista da qual ele pertence. A guerra também – por incrível que pareça – é dos povos indígenas, únicos e verdadeiros donos dessa terra – que hoje habitam em “reservas”, em espaços que são oferecidos a estes povos como se fosse algo de que os governantes deveriam se orgulhar, mas não é nada mais do que a normalidade, eles merecem estas terras; e estas últimas estão ameaças pro grileiros, latifundiários, garimpeiros, madeireiros para assim explorar as riquezas naturais e mais uma vez fazer girar o motor da máquina econômica.

 

 

A guerra que vivemos não é apenas entre os indivíduos sociais aqui presentes e sim uma guerra contra a natureza, os ecossistemas, os animais… O individualismo – termo “à la vogue”, no Brasil e no  mundo desde o final do século XIX – é o grande vilão dessa História sangrenta, aliada, notoriamente, com a sociedade de consumo desenfreado e irresponsável; numa lógica que nos foi “vendida” e difusa de que ter e acumular seria sinônimo de poder e status social visando a ascensão e a construção de uma “elite”. Tal elite, a do consumo e das posses, não merece sequer ser respeitada como sendo uma elite, este termo deveria ser reservado aos intelectuais, músicos, artistas, ativistas, pensadores; elite deveria ser o adjetivo usado para classificar a classe de indivíduos que batalham – de forma pacifica e pacifista – por um mundo melhor, isso sim deveria constituir a elite; e não aquele que possuí o carro do ano, a cobertura no melhor edifício, ouro e diamantes, este é apenas e unicamente um indivíduo dotado de meios monetários, nada mais que isso.

 

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CEM ANOS DEPOIS…E NUNCA ESTIVEMOS TÃO PERTO DAS TRINCHEIRAS – PARTE I

 

TRINCHEIRA - SUPER INTERESSANTE ed. ABRIL
“Por dentro das trincheiras” – Fonte: Revista “Super Interessante” – Editora Abril,  na edição do dia 26 de setembro 2016 – “História, Mundo Estranho”

 

PARTE I: Guerra, o alicerce da civilização.

 

No dia onze de novembro comemora-se todos os anos o final da Primeira Grande Guerra Mundial da era Moderna. Uma guerra de proporção continental que envolveu os últimos impérios da Europa, deixando um contingente de mortos tanto militares como civis, de fato esse conflito foi e sempre será um marco na História da Humanidade. Soldados marchando, lutando, morrendo e matando por ideais e convicções que lhes foram impostas pelos seus “senhores”. Famílias foram destruídas, mulheres ficaram viúvas, filhos e filhas ficaram sem pais. Cidades foram destruídas e desoladas; fome, doenças e outras causas de morte diretamente ligadas à guerra causaram um grande choque no continente europeu.

 

 

Esse conflito também ficou conhecido – popularmente – como a “guerra das trincheiras”, pois pela primeira vez a construção de tal artifício de guerra foi colocada em prática com tanta onipresença e magnitude. O que eram as trincheiras? Basicamente – e de forma bem resumida – eram buracos cavados em frontes de batalhas que se estendiam por centenas de quilômetros onde ficavam abrigados os soldados. Para se ganhar território era necessário destruir e conquistar a trincheira inimiga em face, e conforme os batalhões iam avançando outras trincheiras eram construídas para garantir o domínio sobre tal território recém conquistado. Em outras palavras, era uma tática de guerra audaciosa, mas ao mesmo tempo completamente insalubre para a vida dos soldados, que como se não bastasse, eles colocam suas vidas em risco não apenas por uma guerra que eles foram forçados a lutar, mas também pelas condições higiênicas e sanitárias de tal forma de conflito…

 

 

No ultimo dia onde de novembro então foi celebrada o centenário do armistício da Primeira Guerra, cem anos do final do conflito, enfim, DESTE conflito, porque se analisarmos de perto antes de tal guerra o mundo sempre foi o cenário de guerras e batalhas; e nós – seres humanos – somos dotados de uma enorme incapacidade de aprender com os erros do passado, de aprendermos com a nossa História, com as histórias de nossos antepassados! Obviamente, não foi o fim de todos os conflitos, mas mesmo assim é importante nos lembrarmos de tal data e das atrocidades consequentes de tal guerra. Embora, 37 anos depois de tal conflito, uma Segunda Guerra estourou na Europa e no mundo. Vimos o poder bélico misturado com interesses mesquinhos e um espírito de vingança e ódio da Alemanha nazista e seus aliados que se alastravam pelo mundo.

 

 

Depois do final de tal guerra, vimos duas bombas atômicas despencarem – propositalmente – dos céus de Hiroshima e Nagasaki; em seguida veio a Guerra Fria, e lá novamente o mundo se dividia em dois blocos, em duas classes. Posteriormente, passamos por conflitos tais como as guerras de independência das colônias africanas, do Vietnã, das Coréias, do Iraque, do Irã, do Afeganistão, e  assim por diante, até o “mais recente” dos conflitos enormemente destruidor e mediatizado com a guerra na Síria, gerando assim a maior crise de refugiados da História da Humanidade, somados a tal conflito, temos outras massas de populações ao redor do globo que são forçadas a migrarem para outros territórios no intuito de garantir suas respectivas sobrevivências e fugir das perseguições étnicas, culturais, políticas e religiosas… Sem esquecermos do conflito “mais antigo e duradouro” da Humanidade no Crescente Fértil!

 

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XIII – XI – MMXV

 

 

 

 

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Crédito imagem: LePoint.fr –  “Prefeita de Paris, Anne Hidalgo e o Primeiro Ministro Francês, Édouard Philippe”

Há exatos três anos nesta mesma data, na França, ataques terroristas aconteciam durante a madrugada. Tiroteios e sangue dominavam o cenário da capital francesa, Paris. Dentro de uma sala de espetáculos onde jovens aproveitavam de sua noite de fim de semana junto aos seus amigos, amores, familiares; atiradores entraram na sala e transformaram um show de música em banho de sangue. No Stade de France, uma bomba foi explodida no exterior do mesmo, nas ruas, atiradores faziam vítimas aleatórias pela cidade, miravam e tiravam vidas de parisienses e turistas que aproveitavam aquela noite nas charmosas ruas da cidade da Luz.

Enquanto tudo isso acontecia, lá estava eu, num vilarejo remoto não muito distante da cidade de Lyon, dormindo. E durante a madrugada meu celular começou a pipocar de notificações e a cada minuto que se passava mais informações chegavam e o número de vítimas só aumentava. Voltar a dormir naquela noite era difícil, quase impossível, mas o pior de tudo foi acordar na manhã seguinte e perceber que de fato – aqueles acontecimentos bárbaros e violentos – não faziam parte de um sonho, era a mais pura e vívida realidade. Juntamente com o país inteiro eu acordei com um enorme vazio dentro do coração e uma profunda tristeza por causa dos ataques e do número de mortos e feridos que se atualizavam a cada instante na televisão.

Tristeza e incompreensão, medo e incertezas, esses eram os sentimentos que tomavam conta de mim; dormir em paz em um dia e acordar na manhã seguinte com o país inteiro em choque e banhado de sangue, não existe nada de mais horrível e detestável nesse mundo. Três anos depois e mesmo assim, cada vez que eu fecho os olhos e deixo-me carregar para aquela aurora vermelha de sangue, a tristeza me domina; sinto-me incompleto, como se tivesse perdido uma parte do meu ser, do meu “eu” naquela noite.

Em memória de todas as vítimas, familiares, amigos, parisienses, franceses, e de toda a juventude do mundo, expresso os meus sentimentos e pêsames mais sinceros e profundos!

À la memoire de tous ceux qui sont tombés le 13 novembre 2015, à leurs proches, à leurs familles, aux parisiense, et à toute la jeunesse du monde, j’exprime mes sentiments et condoléances les plus sincères et profondes!

 

J.G.P.A – 13/11/2018 – Americana, SP – Brasil