OPINIÃO: “CONTOS NEGREIROS DO BRASIL”

 

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” – O Rappa

 

Foi na comemoração do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2018 que eu tive a oportunidade de passar por duas experiências incríveis, que me impactaram profundamente e mudaram minha forma de enxergar o mundo e mais precisamente a sociedade brasileira. A primeira foi – de fato – entrar pela primeira vez em 25 anos no Theatro Municipal de São Paulo. É inimaginável para qualquer ser humano de não sentir na pele a magnitude daquela obra arquitetônica repleta de História e Arte. Porém, o Theatro em si – contando com todas as suas maravilhas e detalhes – diz muito sobre o nosso passado e a influência europeia, não apenas em nossa arquitetura, mas igualmente em nossas vidas e na “importação” de costumes e hábitos europeus da dita “Belle Époque”, inspirada principalmente da França constituída basicamente de dois movimentos artísticos importantes: o “Art Nouveau” e o “Impressionismo”.

 

Uma Era que perdurou no Brasil de 1870 a 1931. Mas por que trazer à tona esse breve plano de fundo histórico para chegar na segunda experiência que vivi aquele dia? Qual a relação direta e indireta entre Arquitetura e Arte com o “espetáculo-educativo”, Contos Negreiros do Brasil? É basicamente a comercialização de escravos negros da África para o Brasil para então gerar lucros baseados em uma economia de exploração agrícola e mineral em nosso território. Obviamente, para se financiar obras inigualáveis como o Theatro e as diversas construções de estilo europeu no Brasil, foi necessária uma quantidade demasiada e frenética de dinheiro.

 

O que me leva a seguinte reflexão sobre o preço que pagamos para hoje podermos desfrutar de esculturas, quadros, e edifícios; sou antes de mais nada um grande defensor da Arte e de todas as suas correntes e vertentes, acredito que a Arte é o sentido da vida Humana, não obstante é preciso ressaltar e fazer a nuance que o preço da Arte – principalmente em um regime de escravatura – é alto, além do dinheiro, muita mão de obra foi mobilizada, desta mão de obra, muitos eram escravos negros, muitos morreram, muitos – mesmo depois da Abolição, ainda morrem – ou seja, os pilares que foram edificados em todos os cantos do Brasil durante este período contam com muito sangue negro derramado, nossas fundações e nossos alicerces estão edificados sobre cadáveres de centenas de milhares de escravos, negros.

 

Dinheiro e escravidão. Duas palavras que dizem muito sobre o nosso passado e mais ainda sobre o nosso presente, por isso mudar a mentalidade de tod@s brasileir@s, erradicar o racismo e conscientizar que o preconceito para com os povos africanos que tanto fizeram (mesmo que tenham sido forçados pela força do chicote e da mordaça) deve ser condenado e exterminado. Mesmo com o a Abolição da escravidão no Brasil, os negros ainda são aqueles que ocupam majoritariamente os ditos “sub-empregros”, que têm os menores salários, que vivem nas piores condições, que têm menos acesso à Educação e também constituem a população que mais morre em nosso território. O grande paradoxo é este, como nós podemos ser tão racistas e preconceituosos sabendo que a maioria de nossa população é negra?

 

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RESENHA #1: “O CONSTRUTOR DE PONTES”

Caixa “Intrínsecos” nº#3 ” O construtor de pontes” de Markus Zusak. Fonte:
nostalgiacinza.blogspot.com

   Após a leitura do livro “O construtor de pontes” (título original: “The bridge of Clay”) do autor australiano Markus Zusak, deixo aqui registrada minha opinião sobre esta obra literária. Uma história envolvente, de tirar o fôlego, um livro que se lê rapidamente devido a maestria do domínio da linguagem e da escrita do autor.

 

   Quando comecei a ler este livro ficou difícil parar; recheado de suspenses e flashbacks o autor nos leva à uma viagem dentro de uma casa onde vivem os cinco irmãos Dunbar. Se eu tivesse que resumir em uma palavra o livro inteiro, essa palavra seria: família. A genialidade do Zusak entra na maneira de contar e relatar a história familiar, fatos banais (outros nem tanto) que nos conecta de uma maneira ou de outro com pelo menos uma das personagens ou até mesmo todas. Retratar a vida de uma família pode parecer algo corriqueiro, mas este é o fio condutor que nos aproxima – como leitores – das histórias familiares.

 

   Um ponto incrível do livro é que os inícios das histórias e das vidas das personagens nunca são realmente os começos, sempre há algo que precede antes dos inícios sempre existem outros elementos e fatos predecessores. O autor trabalha este aspecto de uma forma realmente cativante que nos leva a querer saber sobre o passado de cada um dos garotos e todas as outras histórias que precedem a vida deles.

 

   Uma viagem artística e cultural indo da Ilíada e Odisseia de Homero até as obras de Michelangelo, mas também há espeço para Mozart, Bach e um piano. Podemos encontrar animais de estimação insólitos e improváveis, romances e tragédias. Passando por esportes como o Atletismo ou as histórias de jóqueis, joquetas, cavalos, páreos. E claro, a máquina de escrever, que é o objeto usado pelo narrador da história para relatar os fatos de sua família.

 

   Mas não podemos nos esquecer das pontes, dos arcos, do trabalho árduo e do rio. A simbologia por trás da construção de uma ponte é inexoravelmente ligada com a edificação de uma família, do seu presente, passado e futuro. Pai e filhos, mãe e filhos; irmãos. A história gira em torna da fraternidade entre os cinco irmãos, porém vai muito além; sim, são irmãos que dividem o mesmo teto, mas cada um deles tem suas histórias que não são tão paralelas quanto parecem. No começo, temos a impressão que as vidas dos irmãos são desconectadas umas das outras e que as únicas coisas que os unem são: os animais, as brigas, os filmes, os treinos, um Assassino e um velho piano.

 

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CRÍTICA #1: O QUINTO ELEMENTO

5 elemento
Foto da Companhia Cria Criou Artes – Teatro Municipal de Americana “Lulu Benecase” – 18/11/2018

 

 

Lembro-me como se fosse ontem – aquele marasmo de final de tarde de um domingo qualquer, até então – sem muito o que fazer; sem ao menos motivação nem vontade para sair de casa, estava lá, lendo algum livro ou alguma notícia de meu interesse. Mas tudo mudou naquele domingo 18 de novembro de 2018 quando vi em uma rede social que aconteceria na cidade de Americana (interior de São Paulo) um espetáculo no Teatro Municipal Lulu Benecase chamado “O Quinto Elemento”, uma das diversas composições do Circuito Cultural Paulista de 2018.

 

Confesso que não tinha grandes expectativas em relação ao espetáculo (arrependo-me até hoje por este pré-julgamento que fiz); mas o mesmo era gratuito, então decidi ir ao teatro para me distrair e tentar fazer com que aquele longo domingo se terminasse mais rapidamente. No caminho – em direção ao teatro – começou a chover, mesmo assim não fiz meia volta e continuei até meu destino; cheguei uns 45 minutos antes do começo do espetáculo, tive tempo de beber uma água, apreciar o saguão do Teatro (o qual eu não frequentava há mais de anos; no mínimo uns sete). Aos poucos as pessoas iam chegando, estavam ali: proseando, amigos, famílias, conhecidos, encontros não programados, colocando a conversa em dia.

 

Realmente não sabia o que esperar a propósito do que estava por vir quando as cortinas se abririam à minha frente. Sentei-me na parte central do Teatro (que estava quase vazio, mas para a minha surpresa, as pessoas não cessavam de chegar, aos poucos e em doses homeopáticas, no entanto, chegavam) e apreciava o que estava à minha volta: as lindas cortinas vermelhas, observava também as pessoas e seus comportamentos; algo me marcou muito naquela noite: o cheiro do Teatro, era uma mistura de nostalgia da infância com um leve aroma de expectativa e para completar um perfume que exalava arte. Já me sentia muito mais confortável que há alguns minutos desde minha chegada ao espaço de arte.

 

Ainda assim, não sabia o que esperar daquele espetáculo, mas a hora do início estava próxima, a música parou repentinamente, as pessoas ali presentes cessaram suas conversas, as luzes se apagaram quase completamente. Por um segundo senti meu coração parar, e logo acelerar novamente, senti-me como se fosse a minha primeira ida ao Teatro. Estava ansioso e a expectativa já tinha passado de baixa para um outro nível; bem superior: uma combinação de emoção e euforia e ansiedade e… um homem começou a caminhar do fundo da sala até o palco. O espetáculo havia começado.

 

O que veio depois foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido naquele remoto e parado 18/11/18: a redescoberta dos cinco elementos. Elementos artísticos e humanos, música, dança, acrobacia, maquiagem, luzes, mensagens…Percussão, circo. Realmente um espetáculo completo para todos os gostos, idades, classes, gêneros e assim por diante. Os quatro primeiros elementos em questão eram: Pintar, Iluminar, Emitir e Mover… O quinto era eu, nós, a plateia, compúnhamos o QUINTO ELEMENTO. A cada dança, a cada acrobacia, eu me sentia parte do espetáculo, envolvia-me mais e mais, com uma tal intensidade que fazia muito tempo que não via em um teatro.

 

No palco não havia “apenas” atores, todas e todos com seus charmes e habilidades e o poder de comover uma plateia inteira eram: ARTISTAS COMPLETOS! Eram flagrantes a disciplina, os ensaios, as ideias, e toda a árdua composição que estavam por trás daquele momento. Um verdadeiro profissionalismo sem igual; artistas de todas as idades, essa heterogeneidade para mim foi algo marcante; mulheres e homens, dançando, quebrando preconceitos e tabus.

 

Não havia mais divisão entre palco e plateia, éramos UM SÓ! Difícil é saber quem se divertia mais, eles ou nós. Nas diversas expressões dos artistas era possível ver o esforço de cada uma e cada um para nos oferecer o máximo de suas capacidades e habilidades. Os sorrisos em seus rostos, a perfeição das coreografias, a percussão com tambores de plástico que despencaram do teto do palco, as manobras de overboards, os balões de led… Realmente de tirar o fôlego!

 

Minha volta ao Teatro não poderia ter sido melhor, a “Companhia Cria Criou Artes”, vinda da cidade de Santos, litoral de São Paulo, realizou naquela noite de domingo uma performance digna do nome de: ESPETÁCULO! Hoje, completando pouco mais de um mês desde o espetáculo, quando penso naquela noite e fecho os olhos, sou diretamente levado, carregado novamente para a magia de “O Quinto Elemento”.

 

Bravo! Bravo! Bravíssimo!

 

 

J.G.P.A – 20/12/2018 – Americana, SP – Brasil

” Categoria: O ADMIRADOR”