DA MULTIDÃO À SOLIDÃO

 

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“O Pensador” por Auguste Rodin. Crédito imagem: Daniel Stockman (2010)

        Uma breve análise das etapas de socialização.

 

Com o tempo nós começamos a entrar no processo de envelhecimento (embora alguns preferem o termo de “amadurecimento”; mas não somos frutas para ficarmos maduros) e muitas coisas e costumes que nos pareciam normais há poucos anos ou até meses já não fazem ou não têm mais sentido. Práticas corriqueiras que começamos a abolir e nos afastar, maneiras de pensar, correntes políticas, nossa alimentação, nossos passatempos… Envelhecemos e indiscutivelmente mudamos ou evoluímos. Começamos a criar novos interesses e abolir práticas obsoletas, tomamos mais cuidado, nos tornamos mais prudentes para com a nossa existência e também para com o mundo a nossa volta.

 

O processo de envelhecimento é natural e biológico, nossas células ficam velhas e por extensão nossos tecidos, nossos órgãos e assim por diante, e percebemos que estamos ficando velhos quando aparece o primeiro fio de cabelo branco ou uma primeira ruga ou até mesmo aquelas insuportáveis dores na coluna. Tudo isso não é nada mais, nada mesmo que o ciclo natural de como as coisas devem ser, porém não irei abordar o aspecto fisiológico do envelhecimento, mas sim os aspectos humanos e sociais.

 

Vivemos de laços e afinidades sociais, somos seres dotados com a capacidade e a habilidade da socialização, isto é um fato incontroverso. Vivemos em sociedade e construímos constantemente elos sociais com nossos entornos: famílias, amigos, colegas de profissões, médicos, garçons e garçonetes. Estamos a todo momento praticando a arte da sociabilidade com todas as pessoas que dividem conosco os espaços público e também privado. Nós nos construímos graças aos laços sociais que tecemos durante nossas vidas. Alguns laços duram mais ou menos tempo que outros, mas todos têm um impacto X ou Y em nossa existência.

 

Mesmo nas sociedades tribais – que estão completamente ou quase isoladas das nossas – estes laços sociais estão presentes. Somos seres sociáveis em todos os aspectos. Viver nada mais é do que construir laços sociais que visam alicerçar uma amizade, um casamento, uma promoção no trabalho, um desconto na feira ou até mesmo comprar ações de uma empresa chinesa usando nossos smartphones. Tudo que existe e que nos sustenta como civilização são os elos sociais, estes constituem a base e a essência de tudo o que precisamos para sobreviver.

 

Desde o momento em que chegamos ao mundo começamos – mesmo que de forma arcaica – a nos socializar. Somos bebês indefesos nos braços de nossos pais, tias, avós; choramos quando estamos com dores ou com fome, gritamos quando não estamos contentes; nos expressamos usando nada mais que nossas linguagens corporais. Estamos então em contato com a primeira fase da socialização e da mais importante instituição social que existe: a família. Nesta primeira fase não possuímos ainda a habilidade da fala, mas com o tempo e a convivência aprendemos nossas primeiras palavras, depois começamos a formar frases e quando começamos a falar de verdade, é difícil para os adultos de nos silenciar. Adoramos a arte de nos comunicar do momento em que aprendemos a falar.

 

Com a fala tudo fica mais fácil, se estamos com dor de cabeça nós iremos falar desta dor em questão e não apenas chorar e espernear até que alguém descubra o que nós temos. Então, quando crescemos um pouco mais passamos para a segunda fase de socialização que é nosso primeiro contato com o mundo exterior ao núcleo familiar: o berçário ou escola maternal. Lá conhecemos vários indivíduos estranhos com os quais nós não estamos nem um pouco familiarizados. Temos que aprender a dividir um espaço físico com outras dezenas de crianças, o que muda muito de quando estamos em nossas casas onde geralmente temos todo o espaço exclusiva e unicamente para nós. Aprendemos a dividir, a compartilhar, a falar menos (porque as outras crianças também querem se expressar) e assim começa uma nova etapa em nossa vida. Somos parte integrante de duas instituições sociais fundamentais na formação não apenas do ser humano, mas do cidadão, do ator social.

 

A terceira fase está ligada com certas regras imposições que nos são impostas por estas duas instituições, se por exemplo na escola, temos uma piscina ou um campo de futebol, nós somos conduzidos e induzidos a praticar estas atividades. Se a família é de uma religião X, começamos também a frequentar os mesmos lugares de culto. E assim, nosso laços e instituições sociais que antes se resumiam a dois se multiplicam de uma só vez, a uma velocidade incrivelmente rápida. Também começamos nesta mesma fase a frequentar escolas de música, de dança, de teatro, de judô (ou outras artes marciais), de pintura e assim vamos tecendo aos poucos nossas habilidades e descobrindo nossas afinidades. E claro, cada uma destas atividades extraescolares que realizamos, está diretamente ligada em conhecer novas pessoas, aprender novas regras e normas, e assim abrimos um leque gigantesco em nossa capacidade de nos socializar.

 

A quarta fase seria a puberdade onde nós começamos a nos descobrir sexualmente, nos sentimos atraídos pelas pessoas que nos despertam interesses que antes nós nem imaginávamos que existissem. Geralmente nesta fase é uma batalha de sobrevivência na escola, temos a obrigação de sermos populares, de termos incontáveis amigas e amigos, de falarmos com todo mundo, de sermos os xodós dos professores. É uma fase da vida de competição, mas também de muita humilhação para aqueles que não se enquadram ou não veem necessidade de fazer parte de tudo aquilo. Paradoxalmente, é onde começamos de fato a envelhecer, começamos a desafiar as autoridades dos professores e dos pais, a argumentar contra alguns conteúdos e ensinamentos que nos são transmitidos tanto em casa quanto na escola. Desistimos – às vezes – das aulas de guitarra ou de ballet e começamos a nos dedicar e a nos identificar com novas práticas que têm mais ligações e pontos em comum conosco.

 

A puberdade é de fato uma fase extremamente delicada e ao mesmo tempo importantíssima para a formação do ator social. Nela começamos a explorar um novo universo, os adultos já não nos deixam de fora dos debates, e sim, somos pseudo rebeldes. Os hormônios também estão á flor da pele, explodimos facilmente, brigamos, choramos, namoramos, terminamos e depois recomeçamos tudo de novo. A adolescência é um caos, mas é também a fase que descobrimos que odiamos com todas as nossas forças as aulas de Física ou Matemática e que preferimos as aulas de História. É nesta fase que começamos a nos moldar para nosso futuro de acordo com nossas convicções e aptidões. Começamos também a adquirir uma certa liberdade de pensar e de escolher entre uma coisa ou outra. Estamos cheios de sonhos, vontades e desejos que nosso maior anseio é “crescer” ou “ser adulto”; pois bem, isto chega muito rápido e nós nem percebemos.

 

O termo que define da melhor maneira possível esta fase é: quantidade. Queremos de tudo e em grandes quantidades, queremos roupas demais, comida demais, festas demais…Tudo é fora de medida. E principalmente o que buscamos é aceitação demais e isto passa pela posse, pelo ato de ter, principalmente ter AMIGOS e AMIGAS demais. A quantidade prima sobre a qualidade. Nos sentimos forçados a sermos “populares”, a termos o tênis mais bonito, a roupa mais elegante, ou de sermos o melhor no futebol ou na natação. A adolescência é uma fase de acumulação indubitável.

 

Então nos livramos de tudo isso e chegamos enfim à fase adulta. Alguns vão direto trabalhar, outros vão frequentar o ensino superior, e é neste momento que começamos a entender que aquele amigo ou aquela amiga que nós conhecemos lá trás não estará ao nosso lado para sempre. Seguimos cada um nossos caminhos diversos e variados, que raramente irão se encontrar no futuro, ou quando se encontraram se resumem a conversas banais e corriqueiras, mas ainda não temos a total consciência de que “perdemos” e continuaremos a perder vários destes amigos e amigas ao longo da vida. Mas ao mesmo tempo que “perdemos”, paradoxalmente, é o momento do apogeu de nossa sociabilidade, é a fase que nós mais agregamos e conhecemos pessoas diferentes em nossas vidas.

 

Vamos à faculdade, conhecemos pessoas de universos diferentes e começamos a nos dividir em grupos menores, mais reduzidos e nucleares. É impensável, por exemplo, querermos realizar uma festa como a de nosso quinzes anos com 300 ou 500 pessoas quando chegamos à faculdade ou em nosso novo emprego. Nossos círculos sociais se reduzem gradativamente ao longo das fases da vida em relação a quantidade. Às vezes conseguimos guardar e manter amizades ou até mesmo relações amorosas com algumas pessoas que fizeram parte de nossas infâncias ou adolescências. E neste momento nós começamos a dar mais valor – ou o valor correto e devido – a estas pessoas que nós conseguimos conservar em nosso entorno.

 

Começamos então a primar pela qualidade da conversa e nos aproximar e firmar laços com outros atores sociais mais parecidos conosco e com nossos centros de interesse. É verdade que nos dias de hoje temos milhares de amigos virtuais graças às redes; temos centenas de seguidores, mas no fundo sabemos que tudo aquilo não passa de um universo virtual. Nós não nos socializamos nem com um décimo de nossos amigos de Facebook nem com nossos seguidores do Instagram, mas ainda assim estamos lá, conectados, plugados, ligados nas redes. É uma prática confortável se pararmos para pensar, não preciso sair do conforto do meu lar para curtir a foto de um amigo ou de um conhecido, posso também postar uma foto usando uma linda camisa nova e estar usando apenas uma cueca, ninguém verá a parte debaixo porque eu vou editar tal foto e esperar as curtidas. As redes sociais são cômodas e confortáveis, elas nos dão a possibilidade de sabermos o que aquele ou aquela amiga de infância se tornou hoje em dia sem que nós precisemos dialogar com a mesma.

 

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QUALÉ A DIFERENÇA, QUALÉ?

 

Imagens são mágicas. Elas falam, mas não têm bocas. Elas gritam, mas não têm gargantas. Elas fazem sorrir, mas não são palhaças. Elas fazem chorar, mas não são cebolas. Elas fazem pensar, mas não são filósofos.

 

***

 

O poder das imagens é inquestionável…

Imagens nos fazem pensar, refletir; nos causam conforto e desconforto.

Imagens nos causam efeitos.

Imagens nos tocam.

Imagens transmitem mensagens.

Imagens instigam a mente.

Imagens têm voz própria.

Pense.

Reflita.

Repense.

Reavalie.

 

 

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OPINIÃO: “CONTOS NEGREIROS DO BRASIL”

 

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” – O Rappa

 

Foi na comemoração do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2018 que eu tive a oportunidade de passar por duas experiências incríveis, que me impactaram profundamente e mudaram minha forma de enxergar o mundo e mais precisamente a sociedade brasileira. A primeira foi – de fato – entrar pela primeira vez em 25 anos no Theatro Municipal de São Paulo. É inimaginável para qualquer ser humano de não sentir na pele a magnitude daquela obra arquitetônica repleta de História e Arte. Porém, o Theatro em si – contando com todas as suas maravilhas e detalhes – diz muito sobre o nosso passado e a influência europeia, não apenas em nossa arquitetura, mas igualmente em nossas vidas e na “importação” de costumes e hábitos europeus da dita “Belle Époque”, inspirada principalmente da França constituída basicamente de dois movimentos artísticos importantes: o “Art Nouveau” e o “Impressionismo”.

 

Uma Era que perdurou no Brasil de 1870 a 1931. Mas por que trazer à tona esse breve plano de fundo histórico para chegar na segunda experiência que vivi aquele dia? Qual a relação direta e indireta entre Arquitetura e Arte com o “espetáculo-educativo”, Contos Negreiros do Brasil? É basicamente a comercialização de escravos negros da África para o Brasil para então gerar lucros baseados em uma economia de exploração agrícola e mineral em nosso território. Obviamente, para se financiar obras inigualáveis como o Theatro e as diversas construções de estilo europeu no Brasil, foi necessária uma quantidade demasiada e frenética de dinheiro.

 

O que me leva a seguinte reflexão sobre o preço que pagamos para hoje podermos desfrutar de esculturas, quadros, e edifícios; sou antes de mais nada um grande defensor da Arte e de todas as suas correntes e vertentes, acredito que a Arte é o sentido da vida Humana, não obstante é preciso ressaltar e fazer a nuance que o preço da Arte – principalmente em um regime de escravatura – é alto, além do dinheiro, muita mão de obra foi mobilizada, desta mão de obra, muitos eram escravos negros, muitos morreram, muitos – mesmo depois da Abolição, ainda morrem – ou seja, os pilares que foram edificados em todos os cantos do Brasil durante este período contam com muito sangue negro derramado, nossas fundações e nossos alicerces estão edificados sobre cadáveres de centenas de milhares de escravos, negros.

 

Dinheiro e escravidão. Duas palavras que dizem muito sobre o nosso passado e mais ainda sobre o nosso presente, por isso mudar a mentalidade de tod@s brasileir@s, erradicar o racismo e conscientizar que o preconceito para com os povos africanos que tanto fizeram (mesmo que tenham sido forçados pela força do chicote e da mordaça) deve ser condenado e exterminado. Mesmo com o a Abolição da escravidão no Brasil, os negros ainda são aqueles que ocupam majoritariamente os ditos “sub-empregros”, que têm os menores salários, que vivem nas piores condições, que têm menos acesso à Educação e também constituem a população que mais morre em nosso território. O grande paradoxo é este, como nós podemos ser tão racistas e preconceituosos sabendo que a maioria de nossa população é negra?

 

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Φωτιά (Fotiá)

 

 

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Prometeu rouba o Fogo para a Humanidade, por Heinrich Friedrich Füger, 1817

I

Imaginar quanto tu sofres

não consigo, não posso.

Grandioso e belo, amante de nós mortais;

roubastes um dos mais valiosos poderes

dos deuses, traístes o sagrado.

Lá do alto d’Olímpio, pegastes o fogo

e entregastes a nós, pobres e meros mortais.

Poder dos deuses, grande titã tu és e sempre serás,

libertastes a Humanidade de suas limitadas capacidades.

Graças a ti, deus benevolente que roubastes a chama sagrada,

Que afrontastes a fúria e a condenação

dos deuses e titãs mais poderosos que ti:

Temos o fogo! Fogo que tudo queima,

fogo que nos esquenta e alimenta,

que nos faz ganhar guerras e destruir Impérios!

Fogo que nos fortalece, aquece,

Esquece.

Fogo que quando passa

não tem clemência nem benevolência

para com nossos inimigos e pesadelos.

Fogo que arde e fortalece,

esquenta a forja, cria a espada,

funde a lança, queima vivos,

queima mortos.

Fogo, presente e dádiva de ti, Prometeu!

Nos destes esse maravilhoso e vermelho poder

assim, não precisamos mais nos ater aos erros do passado.

O fogo tudo varre, tudo queima, tudo destrói,

Esquece.

 

II

 

Sofres a cada dia um mal pior que a própria Morte

condenado fostes a sofrer por toda a Eternidade!

Águia que de teu fígado se delicia,

Lágrima que de teu olho: escorre.

Pagas o preço do Amor, por nós, mortais,

não em ouro nem prata,

só dor e sofrimento, lento, eterno.

Se não fosse pelo teu sofrimento

pela tua bravura, pela sua Existência,

como nós mortais faríamos

para apagar, queimar, esquecer

os erros do Passado?

Sem o fogo seríamos condenados a viver

Não eternamente como ti,

mas igualmente na dor, na tortura, no erro.

Sem o fogo, angústia!

Sem o fogo, lembrança!

Sem o fogo, dor!

Sem o fogo, pesadelos!

Sem o fogo, inimigos!

Sem o fogo, nada!

Nada seríamos; obrigado grande titã

Obrigado por roubar o fogo dos deuses

e o entregar à Humanidade,

Fogo de Héstia, divindade d’Olímpio!

Justo dela, da poderosa e impiedosa, filha de Cronos!

Que coragem, Prometeu!

Amor por nós mortais e bravura,

nos destes o fogo da ternura,

da salvação e liberação!

E por ti, Prometeu,

eternas serão:

Gratidão e Devoção.

 

III

 

Teu sofrimento e tua condenação, ambos

que sofres agora, neste momento

não terão sido em vão!

Uso esse fogo, sem abuso,

com escrúpulo e consciência

pois sei que cada vez que  ateio uma chama

A Águia está devorando-te!

Uso o fogo com sabedoria

para me livrar dos males do Passado,

para apagar erros cometidos.

E só assim, graças a teu sofrimento e traição,

Esqueço.

Avanço.

Descanso.

 

IV

 

Não há nada de tão belo, forte,

intenso e poderoso como o fogo.

Fogo! Fogo! Fogo!

Queime os erros do meu Passado,

leve em tuas chamas minhas dores e meus pavores,

transforme em cinzas aquilo que já foi vida,

que teu vermelho alaranjado, leves, queimes,

destruas.

Que a fumaça suma, desapareça!

Carregada de sofrimento e tormento,

em direção aos céus, longe de minha morada,

longe de meu sofrido coração,

longe desse sofredor!

Queimes tudo, leves tudo,

Por gentileza, não deixes rastros,

nem mesmo para os ratos!

Apenas carregues em tuas chamas vívidas e vividas,

coloridas e poderosas, intensas,

tudo aquilo que me aflige!

Sem piedade, sem clemência, fogo,

não mostres tua benevolência!

Queimes tudo! Destruas tudo!

E se possível, não me abandones nunca,

como muitas já fizeram após me prometer

Amor Eterno.

Fogo, sejas para minha mera e curta Existência;

Companhia, amigo, inspiração.

Fogo, não me deixes jamais!

 

V

 

Na Escuridão, sejas luz,

no frio, sejas calor,

no calor, sejas bondoso.

Na Noite, sejas guia

no dia, sejas furioso.

Pacto, trato, compromisso,

chames de como quiseres,

mas firmes um comigo.

E como sou de Prometeu,

devoto e grato, hei de ser de ti,

hei de te provar minhas Eternas:

Gratidão e Devoção!

Farei de ti, meu único deus,

deus das chamas, o mais poderoso!

Prometes-me ficar?

Sem nunca me deixar,

sem nunca me abandonar.

E assim serei teu servo mais fiel,

teu devoto mais penitente,

teu guardião e protetor.

Se quiseres comigo este pacto firmar,

Queimes, mostres tuas chamas e teus poderes,

e carregues este e todos os meus erros do Passado!

Leves, em tuas chamas leves,

para bem longe de mim,

antigos amores d’outrora

que hoje se transformaram em dores.

Incendeies!

Libertes-me!

Faças-me esquecer!

Queimes tudo, protejas-me!

Só dessa maneira, só desse jeito

poderei viver.

Continuar.

Me libertar!

 

J.G.P.A – 10/01/2019 – Americana, SP – Brasil “O Poeta”

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DISCORDO: O BRASILEIRO NÃO PRECISA “SER ESTUDADO”: PRECISA ESTUDAR

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Fonte: mapaeducacao.com/blog/dez-mudancas-urgentes-para-educacao-brasileira/

“Da escola que calcula à escola que faz pensar”

 

De memes a grandes reflexões, de piadas à seriedade; ouvimos constantemente a afirmação de que o “brasileiro precisa ser estudado” – ora, tenho que discordar totalmente de tal afirmação, seja ela apenas uma brincadeira ou levada a sério. A meu ver, a Educação (com um “e” maiúsculo e seu verbo “Estudar”) não pode ser motivo para piadas em hipótese alguma, educação não é e nem deve ser tratada e abordada como uma brincadeira.

 

O que de fato nos falta em nosso país é uma educação universal e acessível a todas e a todos, responsável, digna, coerente, gratuita e de qualidade bem mais superior do que os níveis atuais. O sucateamento da educação no Brasil é um problema enraizado e um tanto quanto complexo de se entender e por fim, de se modificar. É preciso ter coragem para afirmar que o sistema de educação no Brasil falhou e continua falhando, que seja nas escolas públicas ou particulares, notavelmente nos Ensinos básicos, fundamentais e médios, mas também não podemos deixar de mencionar o Ensino Superior que é tratado ou como sendo uma mercadoria pelos grandes grupos de universidades privadas ou como um espaço reservado para uma certa camada mais favorecida da população no que diz respeito às universidades públicas.

 

Lembro-me sempre muito bem de minha experiência pessoal pelo sistema educacional brasileiro – e hoje, com uma certa distância de tal sistema – posso afirmar que sofri e não foi pouco. Sempre gostava das matérias que pareciam brincadeiras ou que eram julgadas inúteis por meus colegas de classe: Artes, História, Redação, Geografia, Filosofia, Sociologia… Mesmo adorando essas matérias e tendo uma enorme aptidão para cada uma delas, ainda assim eu estava lá, sendo forçado, obrigado a solucionar os teoremas matemáticos mais complicados, a calcular a velocidade e os vetores nas aulas de Física, a balancear equações químicas e assim por diante; e não havia outra opção, eram duas aulas de História na semana contra OITO de Matemática, por exemplo.

 

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INSÓLITO RENDEZ-VOUS

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Cemitério da Saudade, Americana – SP, Brasil. Foto: João Guilherme Pozzi Arcaro

 

Dizem que quando estamos ali, frente à frente com Ela, somos capazes de ver nossas vidas passarem como um filme projetado numa grande tela de cinema face a nossos olhos. Que podemos ver – de certa forma – tudo que vivemos, nossas recordações, nossos medos e amores, tristezas e alegrias… nos últimos instantes antes que Ela nos leve uma vez por todas.

Dizem tanta coisa a seu respeito.

Falam de sua frieza e de seu caráter impiedoso.

Do medo que Ela nos inflige.

Que somos dotados da capacidade de voltar no tempo; de viver mais uma vez toda nossa existência – em frações de minutos. E só quando terminamos de assistir a este filme, aí sim podemos partir em Paz e Harmonia com Ela e conosco. Ora, nada disto é verídico; não existe uma projeção do passado, não existe dor nem tampouco amor, tudo que há neste momento crucial que nos separa de nossas vidas carnais e espirituais é um longo diálogo – porém seja mais apropriado usar o termo “julgamento” -; calor e ternura são seus principais traços; Ela tem sabedoria, porque sabe mais do que todos nós reunidos, Ela nos antecede; creio eu que sua presença é muito mais anciã do que a Vida.

 

Sábia e sem sombra, mas nada de foice em uma de suas mãos; e sim, Ela tem um rosto, ou melhor, seu rosto é um espelho, é o meu, o teu, o nosso, o de cada um que a encara. São poucos que têm essa oportunidade de relatar o que eu estou prestes a vos dizer, porque quando vamos ao seu magistral encontro, raramente voltamos.

 

Mas Ela erra mesmo não sendo humana, está também à mercê de seus próprios equívocos; acredito que esteja bem cansada, carrega em seus ombros uma fadiga incomparável; é a única que tem esse supremo poder de nos carregar, embora Ela tenha me dito que as cousas não são bem assim:

 

– Nunca carreguei ninguém – indagou – apenas estendi minha mão a todas e a todos, e sempre me acompanharam de pleno e bom grado.

 

Talvez seja a hora de desmistificar o que nos contaram sobre Ela até hoje, sei que parece assustador e penso que muitos de vocês ainda não estão preparados para mergulhar nessa história; muitos não irão sequer acreditar. Mas se estou aqui – escrevendo estas palavras e linhas – é porque sou fruto de um de seus erros, não segurei sua mão para viajar ao além, mas não foi ela quem me poupou, apenas não era o meu momento, não ainda.

 

Essa é a minha história com Ela; talvez outras pessoas tenham outras versões – algumas destas afetadas pela Morfina ou outros medicamentos que as deixaram grogues e sem discernimento entre o que era real e o que era fruto da imaginação. Todavia, como posso saber se eu estava realmente no meu estado de sobriedade absoluta? Como posso vos garantir isto? Não há garantia, talvez tudo tenha sido apenas um singelo rebento de minha fértil inventividade…

 

Vamos ao que aconteceu – ou pelo menos – no que eu acredito que tenha acontecido naquela noite fria; ao som dos raios e sentindo o peso das gotas d’águas – reluzentes como pérolas no escuro da noite. Lá estava eu, divagando em meus pensamentos mais alegres e harmoniosos e subitamente fui dominado por outros tipos de pensamento, aqueles que nós evitamos enquanto o Sol reina ao longo do dia. Insônia.

 

Nada podia me fazer dormir, nem ao menos cochilar, nem por um minuto sequer.

 

Mente e coração: inquietos. Os batimentos deste último se misturavam como uma perfeita orquestra – com seu barulho de percussão – com as gotas de pérolas que caíam dos céus. Então fui até a cozinha, eu, meu coração e a chuva. Fiz um chá na tentativa de me acalmar e poder encontrar novamente o sono. Em vão.

 

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L’ABANDON DES MORTS

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Je vois l’incontournable nécessité d’apporter à la « table » le sujet suivant – d’un côté tabou mais aussi marginalisé – dans notre société : la mort.

 

Il peut paraître difficile parfois, cependant nous devons accepter qu’un jour nous allions tous mourir, ce fait prouvé par la biologie, peut-être un peu moins par certaines religions qui croient dans « l’au-delà » ou dans la « vie après la mort ».

 

Or, ce qui m’inquiète le plus profondément, ce n’est pas le fait de comment nous abordons la mort dans notre société, mais comment nous prenons soin ou non – de la manière la plus appropriée – de nos défunts.

 

Je prends comme exemple le Cimetière du Regret (« Cemitério da Saudade ») d’Americana ( São Paulo, Brésil). Il est désolant quand je m’apaisais que le lieu – qui est par définition un endroit de repos, paix, soins et surtout de mémoire et histoire – reste à la dérive, touchant quasiment l’abandon complet.

 

Les tombes et les stèles qui portent les plus diverses histoires des habitants d’Americana sont là, elles crient au secours. Quelques-unes déchirées, tombées, oubliées. Des traits de notre histoire et des multiples trajectoires de chaque citoyen qu’un jour participa d’une manière ou d’une autre de la vie de la ville.

 

Laisser le cimetière être dominé par les herbes qui poussent entre les petits chemins de ce dernier, le manque d’entretien et de main-d’oeuvre et enfin la négligence et l’abandon d’un endroit où non seulement nous « conservons » nos morts, mais également nos mémoires.

 

Notre identité est là, enterrée. Les piliers des fondateurs d’Americana reposent dans le regret, mais en même temps dans l’oubli et négligence. Le fait de ne pas prendre soin comme il faut de cet endroit implique inexorablement que nous sommes voués à oublier le passé et nos origines.

 

J.G.P.A – 10/01/2019 – Americana, SP, Brésil –  ” Le raconteur d’histoires”

pour le journal ” O Liberal” 

 

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*Titre original: ” Une société qui ne s’occupe pas de ses morts est vouée à tomber dans l’oubli”

O ABANDONO DOS MORTOS

 

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“Opinião”: Jornal “O Liberal” – “O abandono dos mortos”

 

 

Vejo a incontornável necessidade de trazer à pauta este assunto – um tanto quanto tabu como marginalizado – em nossa sociedade: a morte. Por mais difícil que seja nós temos que aceitar que um dia todos iremos morrer; fato comprovado pela Biologia, talvez um pouco menos para algumas religiões que acreditam no “além” ou na “vida após a morte”.

 

Mas o que me preocupa profundamente não é o fato de como abordamos a morte em nossa sociedade, e sim, como cuidamos ou deixamos de cuidar de maneira apropriada de nossos defuntos.

 

Tomo como exemplo o Cemitério da Saudade de Americana. É entristecedor quando percebo que o lugar – que é por definição um local de descanso, paz, cuidado e acima de todas as coisas: de memória e História – está à deriva, beirando o abandono. Túmulos e lápides que carregam as diversas histórias dos habitantes e da cidade de Americana estão lá, gritando para serem socorridas. Algumas despedaçadas, caídas, esquecidas.

 

Traços de nossa história e das múltiplas trajetórias de cada cidadão que um dia participou de uma maneira ou de outra da vida da cidade. Deixar o cemitério ser dominado por ervas daninhas que crescem no meio das estreitas ruelas do cemitério, a falta de manutenção e mão de obra e por fim o desleixo e abandono de um lugar onde não apenas “conservamos” nossos mortos, mas nossas memórias.

 

Nossa identidade está lá, enterrada. Os pilares dos fundadores de Americana, descansam na Saudade, porém, igualmente no esquecimento e na negligência. O fato de não presarmos pela conservação do local implica inexoravelmente que estamos fadados a esquecer o passado e nossas raízes.

 

J.G.P.A – 10/01/2019 – Americana, SP – Brasil ” O contador de histórias” ,

para o Jornal “O Liberal”

 

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*Título original: “UMA SOCIEDADE QUE NÃO CUIDA DE SEUS MORTOS ESTÁ FADADA AO ESQUECIMENTO”

RESENHA #1: “O CONSTRUTOR DE PONTES”

Caixa “Intrínsecos” nº#3 ” O construtor de pontes” de Markus Zusak. Fonte:
nostalgiacinza.blogspot.com

   Após a leitura do livro “O construtor de pontes” (título original: “The bridge of Clay”) do autor australiano Markus Zusak, deixo aqui registrada minha opinião sobre esta obra literária. Uma história envolvente, de tirar o fôlego, um livro que se lê rapidamente devido a maestria do domínio da linguagem e da escrita do autor.

 

   Quando comecei a ler este livro ficou difícil parar; recheado de suspenses e flashbacks o autor nos leva à uma viagem dentro de uma casa onde vivem os cinco irmãos Dunbar. Se eu tivesse que resumir em uma palavra o livro inteiro, essa palavra seria: família. A genialidade do Zusak entra na maneira de contar e relatar a história familiar, fatos banais (outros nem tanto) que nos conecta de uma maneira ou de outro com pelo menos uma das personagens ou até mesmo todas. Retratar a vida de uma família pode parecer algo corriqueiro, mas este é o fio condutor que nos aproxima – como leitores – das histórias familiares.

 

   Um ponto incrível do livro é que os inícios das histórias e das vidas das personagens nunca são realmente os começos, sempre há algo que precede antes dos inícios sempre existem outros elementos e fatos predecessores. O autor trabalha este aspecto de uma forma realmente cativante que nos leva a querer saber sobre o passado de cada um dos garotos e todas as outras histórias que precedem a vida deles.

 

   Uma viagem artística e cultural indo da Ilíada e Odisseia de Homero até as obras de Michelangelo, mas também há espeço para Mozart, Bach e um piano. Podemos encontrar animais de estimação insólitos e improváveis, romances e tragédias. Passando por esportes como o Atletismo ou as histórias de jóqueis, joquetas, cavalos, páreos. E claro, a máquina de escrever, que é o objeto usado pelo narrador da história para relatar os fatos de sua família.

 

   Mas não podemos nos esquecer das pontes, dos arcos, do trabalho árduo e do rio. A simbologia por trás da construção de uma ponte é inexoravelmente ligada com a edificação de uma família, do seu presente, passado e futuro. Pai e filhos, mãe e filhos; irmãos. A história gira em torna da fraternidade entre os cinco irmãos, porém vai muito além; sim, são irmãos que dividem o mesmo teto, mas cada um deles tem suas histórias que não são tão paralelas quanto parecem. No começo, temos a impressão que as vidas dos irmãos são desconectadas umas das outras e que as únicas coisas que os unem são: os animais, as brigas, os filmes, os treinos, um Assassino e um velho piano.

 

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POESIA EM PROSA

ser e tempo editar
Capa do livro ” Sein und Zeit” ( Ser e Tempo), de Martin Heidegger; filósofo alemão.

 

Se você se vê em tudo, significa que você sabe quem você é?

Ou só mostra o quão desesperado pela auto identificação você está?

Me vejo na criança de cabelos louros cacheados, em um velho solitário,

em um casal apaixonado, perdido na alma de um desalmado;

me vejo em todo lugar e em lugar nenhum,

vejo quem eu queria ser,

quem eu sou e quem eu era, até consigo ver minha sombra.

Mas ainda não sei quem sou eu.

Essa construção diária está me matando…

me sinto no começo de um livro de investigação,

tentada a ler a última página que soluciona o crime de vez;

não consigo mais esperar para saber quem eu vou ser no final disto tudo. 

Será que vou me orgulhar da mesma forma que me orgulho dos amores que carrego no peito?

Não saber é pior que saber, mas de qualquer forma eu tenho que ver as coisas com mais esperança,

vendo assim dizem que fica mais fácil encarar o medo.

Eu tenho esperança de que o que estou construindo hoje seja bom no futuro ou pelo menos sirva de lição,

que seja o empurrão que eu precisava.

Só não seja, por favor, uma perda de tempo, pois não posso viver sabendo que não estou

em constante transformação…

 

Stefanni Lira – 28/12/2018 – Campinas, SP – Brasil  “ A Poeta”