Túrbida epopeia em Paris

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Foi numa dessas tardes banais de uma quarta-feira qualquer

quando te vi pela primeira vez,

quando o raio que reluzia do teu olhar

cruzou com meus olhos.

Quando teus lábios pintavam o céu

com o mais belo de todos os sorrisos.

Quando meus dedos – ainda que sujos de tinta –

tocaram levemente sua pele de seda.

Quando o impossível enfim acontecera;

apaixonara-me novamente.

***

E foi assim que uma quarta-feira banal

sem graça nem cor, se tornara o começo de uma nova epopeia.

Nós dois juntos – heróis – desbravando o mundo,

por ali, por aqui, por todos os cantos viajando e planejando.

Invencíveis por um instante eterno

que todos os relógios cessaram,

que o tempo não mais importara.

Era o começo da nossa própria Odisseia.

Mas quem me dera;

Ah! Quem me dera se ao menos eu soubesse

que era também o fim.

***

Proseando e sorrindo, degustando champanhe,

e de um instante a outro estávamos em Paris,

mas tu me falaste que gostavas de girassóis,

e fomos até a Toscana.

No meio da viagem, senti teu abraço apertado,

peguei-te em meus braços, olhei em teus olhos,

nossos lábios se tocaram.

Meu coração primeiro parara,

depois partira em disparada.

Não me contive.

***

Olhei para o champanhe, estava quase sem bolhas,

percebi que o tempo enfim passara.

Mas ainda não sabia que assim como as bolhas,

tu também passarias num piscar de olhos

e nunca mais retornaria.

Como poderia imaginar?

***

Éramos heróis famintos por conquistar o mundo,

tu já tinhas – contudo – outros planos.

Nesses eu não estava incluso.

Como fumaça de um cigarro mal apagado,

tu escaparas.

Era inútil tentar te alcançar.

Nossa Ilíada amorosa terminara.

***

Amanhã será outra quarta-feira banal,

talvez não. Espero que não.

Porém, esperar não posso,

as ruelas de Paris clamam por mim,

os girassóis da Toscana sussurram meu nome à noite.

Preciso apressar-me,

minha jornada continua,

e quem sabe não seja nessa jornada

onde encontrarei o amor verdadeiro?

Num bar boêmio da Cidade da Luz?

Ou quem sabe na terra das flores e do vinho?

De nada sei.

Folhas de papel em branco e tinta,

estou pronto para terminar a escrita dessa aventura,

e se porventura mudares de ideia,

estarei à tua espera.

Se quiseres, saberás onde encontrar-me,

procures nos cantos boêmios,

nos jardins… Em todo lugar onde flui o amor,

e receber-te-ei como naquela quarta-feira banal.

Mas assegurar-me-ei que desta vez as bolhas do champanhe

não irão embora, e para sempre ficarão congeladas,

como o tempo.

***

 

J.G.P.A – Americana, SP – Brasil

azulejo

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