O PERIGO DA PERDA DE SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

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Nós – seres humanos – somos dotados da arte de dominar as palavras, são elas que nos permitem uma fácil e eficaz comunicação. Antes de invenções como a escrita ou até mesmo a impressão as palavras eram os sons emitidos por nossos ancestrais no intuito de se comunicar. Códigos e combinações de sons que permitiram o surgimento de dialetos e idiomas, muito dos quais já foram extintos e outros alterados e modificados ao curso do tempo. Cada vez aprimoramos nossas capacidades e meios de nos comunicarmos.

As palavras nos permitem de denominar objetos, rotular e etiquetar o mundo que nos entorna, o que pode ser visto como um fenômeno facilitador em nossa vida cotidiana, permitindo nossa existência e reforçando ainda mais nosso instinto animal que busca constantemente a sobrevivência. Animais de outras espécies utilizam sons e linguagens diferentes das nossas para alertar quando há água e comida por perto, mas também ameaça de outros predadores; de certa forma nós também utilizamos estes códigos, mas de uma maneira mais elaborada e desenvolvida que é a linguagem.

Temos palavras para tudo que conhecemos em nosso mundo e quando não temos – que são os casos onde realizamos “descobertas” – criamos termos para designá-las, ou seja, neologismos. E desta maneira os dicionários vão se modificando, ficando mais espessos e completos a cada dia, a linguagem está sempre em constante construção.

Não podemos nos esquecer que nós nos servimos das palavras para os atos mais rotineiros como fazer uma lista de compras ou até mesmo escrever verdadeiras obras primas como “A divina comédia”. As palavras – quando escritas – constituem registros de nossas vidas; o fato de escrever nada mais é do que transcrever o que ouvimos, falamos e pensamos, transformando a linguagem falada em registros escritos.

Para a ciência, é graças as palavras que podemos demonstrar os resultados de nossas pesquisas. No campo da medicina são as palavras que dão nome – por sua vez – às patologias, facilitando a administração de medicamentos (com nomes) ou de terapêuticas específicas para nos curar. Do mais simples ato de comunicação como o ato de fazer novas amizades ou conversar com alguém que conhecemos (ou não) até as grandes obras literárias, peças de teatro, poesias, expressões de opiniões, as escritas sagradas e a Arte por via das regras dependem das palavras para sua existência.

Até agora expus as qualidades positivas das palavras que são usadas como o alicerce da vida humana em sociedade e são tais palavras que nos permitem de registrar absolutamente tudo o que acontece. A escrita é – sem sombra de dúvida – a maior herança que estamos deixando de nossas vidas, cada narrativa particular e singular será levada em conta em um âmbito mais vasto que seria uma espécie de “grande narrativa da Humanidade”.

Contudo, as palavras também são utilizadas e proferidas para convocar guerras, julgar o próximo, insultar e injuriar. Popularmente, dizemos que as palavras “têm o poder de fazer sofrer”, e devo concordar com esta afirmação, pois palavras são igualmente usadas para ofender, discriminar, destruir, tirar vidas e assim por diante. Mesmo este sendo o lado negativo das palavras ele existe e cabe a cada um de nós não recorrermos ao uso constante deste grupo específico de palavras que fere.

Palavras são poderosas. São ao mesmo tempo armais letais e salvação, nós quem devemos decidir quais iremos usar e em qual contexto iremos inseri-las. Muitas palavras são usadas de formas tão errôneas e fora de contexto que acabam se banalizando e perdendo o seu real significado.

Para exemplificar, a palavra “comunista”, hoje ela é utilizada para designar todo indivíduo que preza por melhorias sociais, que denuncia as desigualdades do mundo e luta de uma forma ou de outra em busca de atingir um certo patamar de igualdade dentro de nossas sociedades. Mas a conotação e o contexto que o adjetivo “comunista” é empregado é totalmente negativo e pejorativo; é uma palavra utilizada para ofender o indivíduo e faz uma alusão direta à URSS e os campos de concentração (gulags). Então, aquele que é socialista não é mais o mesmo que defende uma sociedade igualitária e sim um ditador sanguinário, o termo é então dominado pela figura de um ser: Josef Stalin. Assim, vemos uma clara distorção e má interpretação desse termo – voluntaria ou involuntariamente. O grande problema reside no fato de que a partir do momento que a palavra tem significado distorcido, uma narrativa inteira se modifica, como foi o caso da implantação de dezenas de ditaduras militares nos países da América Latina “para combater o comunismo ou também conhecido como “fantasma do comunismo””. Milhares morreram em decorrência de uma distorção de um só termo, assim como os termos de “herege” e infiel” foram capazes de fazer com que a Inquisição aniquilasse centenas de milhares de vida na Europa no século XV.

Outra palavra que está sendo erroneamente utilizada nos dias de hoje é “fascista”. Este termo é utilizado para designar todo aquele que não concorda comigo ou que não compartilha das minhas opiniões. Entretanto, utilizar este termo de uma forma leviana é de fato preocupante e desrespeitoso ao mesmo tempo. Preocupante pois as pessoas que o pronunciam não sabem o verdadeiro significado da palavra e desrespeitoso pois o fascismo foi umas das piores – se não a pior – “ideologia” que já existiu no Planeta. É claro que – infelizmente – ainda existam fascistas e movimentos deste gênero no mundo, mas por respeito a todas as vítimas e por compaixão pelo estrago deixado pelo legado fascista, é preciso pensar e avaliar várias vezes antes de rotular alguém ou um grupo de fascista. É uma palavra que carrega uma extrema violência e não deve ser proferida em vão.

O que seria realmente ideal é que nós soubéssemos exatamente o significado das palavras que proferimos e escrevemos antes de fazê-lo, pois uma distorção ou um uso inadequado de certos termos pode causar enormes impactos de diferentes níveis. Por isso é extremamente importante que conheçamos as palavras que falamos e escrevemos, e nos casos onde surgirem dúvidas a respeito de algumas delas nós temos a obrigação de abrir um dicionário e nos instruir.

 

J.G.P.A – Americana, SP – Brasil 

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