Crônica: ” A ideologia simbiótica dos seres”

Simbiose

 

 

Não gosto de fazer alarde nem tampouco criar uma atmosfera de pânico e desespero. Esforço-me diariamente para observar e vivenciar o que há de melhor no mundo e nas pessoas, um fastigioso exercício, confesso. Há maldade por todo lado, falsas crenças e profetas que guiam milhões de pessoas rumo ao abismo quando em contrapartida estão lhes prometendo o Paraíso.

Seguimos dogmas e normas para sermos “bons”, seguimos à risca doutrinas que nos forçam – em partes ou por completo – a abdicar de nossos desejos, vontades e paixões. É assustador saber que vivemos pensando sempre no “amanhã”, no “depois”, no que “virá” e não no presente. Acatamos algumas palavras soltas ao vento de frases motivacionais, de profetas ou escritas sagradas para guiarem nossas condutas, mas novamente, sempre pensando no futuro: “se eu fizer isto hoje, amanhã serei recompensado”; “se eu seguir os ensinamentos de uma determinada religião eu atingirei o meu ápice humano dando significado à minha vida quando morrer, indo assim ao Paraíso”. Um paradoxo que cativa bilhões de seres humanos que seguem firmemente doutrinas (religiosas ou não) em busca de um “post-mortem” confortável e melhor do que a vida na Terra. E é assim que esquecemos da vida presente, a vida biológica, psicológica, social e amorosa do ser humano, nesta busca sem cessa para uma redenção ou uma transcendência espiritual suprema e absoluta. Talvez seja o momento de pararmos de pensar no que será de nós quando morrermos (independentemente de nossas crenças pessoais) e que comecemos a viver a vida como ela realmente é, aqui, agora, neste instante.

Para que fique claro – nem todo dogma, doutrina e limitação são impostas por religiões quidem – uma filiação partidária, um modo de vida, a prática de um esporte, um tipo de alimentação, um estilo de vestimenta, enfim tudo isso conduz nossas ações e por consequente nossas interações com outros indivíduos e principalmente para com nós mesmos. Não há mal em seguir e defender causas (ambientais, raciais, partidárias…), torcer para um time de futebol, muito pelo contrário, são nessas chamadas “doutrinas” que criamos nossa identidade e nos afirmamos num mundo com 7 bilhões de pessoas. O problema é quando nos deixamos nos envolver por apenas uma bandeira, uma ideologia, de forma cega e sem questioná-la; de aceitar aquela única doutrina como sendo absoluta e verdadeira, e assim começamos a nos tornar preconceituosos e intolerantes em relação aos outros indivíduos sociais.

Há três anos mais ou menos eu escrevi um curto texto sobre bandeiras de países, enaltecendo a união de todas elas – uma sinfonia poética quando o vento as soprava – mas o que eu quis demonstrar com este texto era que todas as bandeiras estavam no mesmo nível – mesmo que pertencentes a países diferentes – nenhuma se sobrepunha ou se sobressaía, estão perfeitamente alinhadas, iguais. E eis a conclusão simplista em qual cheguei: não seria ideal se todos os indivíduos fossem iguais àquelas bandeiras? Não seria ideal que nenhum país parasse de impor sua supremacia em territórios alheios?

Ademais, outra conclusão foi a seguinte: toda vez que indivíduos em todas as partes do mundo marcharam e defenderam uma só bandeira o resultado foi sanguinolento e trágico. Temos como exemplo as Cruzadas, o Nazismo e o Fascismo, as ideologias ultranacionalistas, como também mais recentemente o Estado Islâmico. Em suma, quando um grupo de indivíduos opta por seguir apenas uma ideologia, e tem uma única visão do mundo: o resultado é catastrófico e os inocentes ou aqueles que sofreram uma “lavagem cerebral” sempre pagam um preço alto por ideologias absolutistas.

 

***

 

Mas como tudo isso que escrevi até agora se relaciona com esses pequenos brotos de girassóis? Tudo. Eles representam um contato que acredito que seja primordial para todo ser humano – principalmente porque tendemos a nos esquecer que somos animais e que precisamos estar em harmonia com a Natureza, afinal ela é a Mãe de todos nós.

Você pode ser judeu, cristão, muçulmano, hindu, budista, ateu, agnóstico, acreditar em Inferno e Paraíso, em espíritos e fantasmas e isto deve ser encorajado e respeitado, mas o meu ponto aqui é claro e simples: qual o valor de frequentar lugares religiosos, realizar orações, fazer caridade, seguir a Bíblia ou o Alcorão, mas tudo isso será em vão se você não mantiver uma boa e harmoniosa relação com a Natureza. Você pode ser brasileiro, chinês, australiano e defender seu país com um patriotismo firme e inquestionável, porém se você não é capaz de apreciar a beleza da natureza, dos rios e animais, das árvores, das flores, dos insetos etc…do que adianta defender a bandeira de seu país?

Defender a Natureza e suas riquezas não é como defender uma religião ou seguir uma doutrina, e sim uma obrigação de todos os animais e seres vivos que participam ativa ou passivamente das centenas de milhares de ecossistemas do qual fazemos parte. O assunto aqui não é defender se meu país é melhor do que o seu, se o seu time de futebol é superior ou inferior ao meu, e sim defender a única ideologia universal que não exclui todos os outros dogmas, estilos de vida, doutrinas, religiões, crenças que nós podemos ter a nível individual.

Para entender os mistérios da Natureza e suas grandezas o passo primordial é que temos que ter a consciência de que não somos apenas seres externos observadores vendo uma plantinha nascendo ou um macaco pulando de galho em galho, mas que nós fazemos parte de tudo isto; que estamos totalmente conectados e que somos parte integrante deste todo e não apenas espectadores. Se atingirmos esse nível de consciência relacional para com a Natureza, acredito de forma veemente que poderemos nos relacionar melhor com nós mesmos – como indivíduo, controlando assim nosso ego – mas principalmente poderemos tecer uma rede mais sólida e firme para com os outros animais (humanos ou não) que dividem o Planeta conosco, como as aranhas tecem suas teias ou os fungos se proliferam por milhares e milhares de quilômetros abaixo do solo.

Por que quando vamos a um parque ou quando apreciamos as Cataratas do Iguaçu nós nos sentimos bem? Por que nos sentimos em sintonia com toda aquela magnitude que estamos vivenciando? Não é – obviamente – pela questão puramente estética e sim porque nós somos e fazemos parte daquilo tudo. Não existe uma “energia que vem da Natureza e nos é transmitida” e sim uma só energia. Somos todos: plantas, árvores, rochas, vento, águas, rios, oceanos. Essa afirmação – um tanto quanto animista – é o que me motiva todos os dias. É minha fonte de inspiração, meu retiro de meditação…

Mas para isso precisamos entender – como já disse anteriormente – que não existem dois lados “nós” e a “Natureza” e apenas um que é a Natureza, da qual fazemos parte. Posso não ser o genitor dessas sementes que viraram brotos e logo virarão flores e plantas, posso igualmente não ser aquele que lhes oferece os nutrientes que precisam para se desenvolverem… Porém, sou aquele que zela por cada um daqueles brotos, aquele que sua para conservá-los. Eu não sou apenas o jardineiro deste jardim, eu sou o jardim e este jardim sou eu.

 

J.G.P.A – Americana, SP – Brasil

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