A extinção do romântico

 

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Hoje acordei e me recordei de uma das melhores lembranças de minha vida toda que foi quando eu visitei a cidade de Verona na Itália. Um lugar único e atípico, repleto de arte, cultura e sobretudo de uma energia inerente que paira em suas pequenas ruelas em contrastes com suas grandes catedrais e um mar de turistas.

E acima de tudo Verona foi o cenário perfeito para a tragédia amorosa shakespeariana de Romeu e Julieta. Acredito que a maioria das pessoas está familiarizada com esta obra-prima que retrata um amor ingênuo, inocente e proibido entre dois jovens. Uma paixão pura e verdadeira, mesmo que impossível. Um amor tão intenso, mas também repleto de proibições impostas por famílias rivais que de tudo fizeram para inviabilizar o amor de Romeu de Julieta.

Tantas barreiras impostas ao amor conduziram os dois jovens a um trágico fim: o suicídio. Porém, até mesmo este ato desesperador, irreversível e trágico é retratado de forma romântica, servindo igualmente como um aviso para todos nós – que de uma maneira figurativa – nos suicidamos todos os dias por não nos proporcionarmos a oportunidade de vivermos uma história de amor, de não vivermos um romance.

Se usarmos como exemplo nosso cotidiano é possível afirmar que estamos nos matando – de uma forma figurativa – e simplesmente passando por lugares, trabalhando, pensando em nossas carreiras, em nossos bens materiais, em conquistas, em dinheiro, em posses. Isto tudo é uma forma perversa, triste e vazia de existir. É um desperdício do nosso curto tempo de vida porque estamos à procura constante de grandes realizações em detrimento da maior e mais importante realização da vida humana que é o amor, a paixão.

A proibição dessa vez não se dá por conta da rivalidade de duas famílias inimigas, mas vem de nosso próprio interior, nosso ego funciona como as famílias Capuleto e Montecchio, assim nos impede de amar. Nos atentamos mais para a aura dos objetos, do material, do que para a aura das pessoas; não somente isso nos causa um certo tipo de isolamento, mas também nos torna mais violentos e bem menos abertos receptíveis para com os outros indivíduos sociais que estão ao nosso redor.

Somado a este fenômeno inerente e interno é imprescindível falar da pressão imposta pela sociedade e dos tabus e preconceitos que são criados, divulgados e bombardeados contra os românticos. Falo aqui com propriedade e experiência própria. Cada vez mais parece que amar, que se lançar numa paixão está se tornando algo a ser condenado e não incentivado. Nos dizem para pensar em nosso futuro e em nosso conforto material, nos dizem também para não nos envolvermos, nem tampouco nos entregarmos e mergulharmos em paixões e amores, com o pretexto de que isto é contraproducente em relação à nossa existência.

O amor pode não produzir fortunas, pode não construir impérios materiais, mas ainda assim deveria ser a base para toda e qualquer relação humana. Uma utopia. Um sonho. Tenho consciência de que isto não irá acontecer, de que o amor nunca será a base que fundamenta os laços entre nós, humanos.

A sociedade nos julga quando preferimos passar uma tarde com a pessoa que amamos, lá na beira de um lago ou uma noite observando as estrelas, porque “estaríamos perdendo nosso tempo” e por consequente não estaríamos produzindo. Em suma tentam nos mostrar por meios matemáticos – como um teorema – que o romântico está fora de moda, que não condiz mais com nosso espírito e nossa vida; que não deve fazer parte do nosso cotidiano.

O que me leva diretamente a pensar o que realmente nos une como sociedade, como conjunto, aí me lembro daquele ditado popular “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Então é o interesse em comum CONTRA alguém ou algo que nos une e não a favor ou por alguém, uma forma um tanto doce para falar que somos unidos pelo ódio e pela ambição.

O individualismo nos diz que temos que ser autossuficientes, que não podemos depender de outras pessoas, que nós nos bastamos para nós mesmos, que não precisamos de alguém em nossas vidas, que ser e estar e ficar sozinho deve ser encorajado. As teorias individualistas nos vendem isso como sendo o ápice da liberdade que um indivíduo possa atingir: viver só e bastar-se. Quem não deseja liberdade e independência? Então assim nos são “vendidas” estas ideias de que eu me basto para minha existência, de que eu sou o centro do meu mundo.

Tiramos uma, duas, dez, duzentas, mil “selfies”. Nos proporcionamos todo tipo de cuidado no que concerne a moda, a estética e assim nos tornamos vaidosos. Assim o individualismo logo se transforma em vaidade que se transforma por mim em egoísmo e egocentrismo, e no final de tudo se transforma em violência. Aos poucos vamos nos tornando tão individualistas que começamos a perder a capacidade de amar ao próximo. Preferimos investir em grandes espelhos do que em flores, em roupas do que em livros de poesia. Decidimos dedicar nosso tempo ao acúmulo de posses do que simplesmente aproveitar e gozar de nosso tempo em busca de amores e paixões.

Os românticos são uma espécie em curso de extinção em todos os aspectos de nossa vida. Na literatura, no cinema, na arte em geral. Paradoxalmente nunca amamos tanto, mas esse amor é o amor próprio e não para com o outro. Um amor baseado na vaidade e no “eu”, no individualismo e não no coletivo. Onde foram parar as flores? Os gestos de afeto? O carinho? O apreço? A magia de se aventurar numa história de amor, de fechar os olhos ao lado da pessoa que amamos e nos entregar incondicionalmente ao amor?

Estamos condenados ao mesmo destino que Narciso; temos a crença que nós nos bastamos e essa autossuficiência está nos destruindo aos poucos. Vivemos num mundo onde o amor é o tabu, motivo de chacota e algo que não deve ser encorajado e sim contido, escondido e condenado. Será este o motivo de tanto ódio, de tantas guerras e tantos conflitos? De tanta tristeza e solidão?

 

J.G.P.A – Americana, SP – Brasil

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2 comentários em “A extinção do romântico

  1. Gosto da forma que você escreve.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigado por nos prestigiar e parabéns pelo seu espaço

    Curtido por 1 pessoa

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