O dilema da ostra

 

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Um certo dia lá estava eu olhando para dentro de mim, na tentativa de conseguir decifrar enigmas e mistérios sobre o meu “eu”, minha essência e o meu “ser”. Nessa busca veio à tona sentimentos de diversas naturezas, no começo veio a nostalgia do passado. Os sorrisos que marcaram certos momentos da minha vida, os abraços, os beijos; uma nostalgia positiva repleta de boas memórias. Pessoas, lugares, encontros, despedidas – mesmo que temporárias – a até mesmo os “adeuses” definitivos. O tempo passou, na verdade ele está sempre passando, nunca para, então seria mais apropriado dizer que fui eu quem parei para olhar para o tempo e perceber que até mesmo aquilo que me fez sofrer e chorar, hoje me faz sorrir.

 

Quando a Morte – por exemplo – levou pessoas queridas que eu tanto amava, confesso que me senti na corda bamba, tentando achar o equilíbrio entre a raiva e o amor, entre o desespero e a solidão, a desolação e a saudade. Olhos fechados, corpos gelados, uma vasta escuridão no que um dia fora a visão daquele que partiu, morreu. Sim, eu imaginava por muito tempo o que os mortos enxergavam, o que eles viam – se é que viam alguma coisa. Espero com toda sinceridade que não seja essa escuridão que imaginei, tenho a convicção que a morte é um vasto universo iluminado, brilhante, inundado de cores e imensidão; um território sem fronteiras, apenas o infinito.

 

Hoje sinto-me diferente em relação a todos aqueles que se foram. Quando eu fecho os olhos e me lembro de cada gargalhada, de cada demonstração de amor e afeto, de cada refeição compartilhada, não sinto mais raiva; sinto gratidão por ter vivido cada um daqueles momentos sem nenhum arrependimento ou ressentimento. Quanto à saudade, sim, de quando em quando ela vem e bate na porta e eu como um bom anfitrião, deixo- a entrar, não há mal nenhum em sentir saudade, em sentir falta daquela pessoa.

O que é a saudade? Do jeito que eu a vejo é simplesmente um grão de areia que muitas vezes me incomoda, me perturba, me entristece, mas no final sempre me enriquece e fortalece. Então minha imaginação me leva até o fundo do mar onde há uma ostra, um molusco extremamente fascinante. Quando a ostra é atacada por um invasor – este podendo ser até mesmo um só grão de areia – ela se protege da forma mais estupenda que existe, criando um círculo de proteção ao redor daquele invasor, e desta maneira a ostra sobrevive criando uma majestosa pérola.

 

Eu – assim como esta ostra – faço exatamente o mesmo gesto com esse grão de areia que eu chamo aqui da “saudade”; crio uma bolha ao seu redor e então fecho meus olhos e deixo esse sentimento invasor me dominar por inteiro. Saudade das pessoas que passaram e não ficaram, saudade daquelas que para sempre se foram, saudade de um abraço, saudade da infância, saudade do ontem e do anteontem. Saudade de tudo que vivi e sei que não viverei novamente, pelo menos não do mesmo jeito. E exatamente como a ostra eu transformo meu próprio grão de areia em uma reluzente e magnífica pérola.

 

Um sentimento invasor, um grão de areia, que quando controlado me enche de inspiração. Um grão de areia que permite a criação dos meus versos, que me ajuda na escolha de cada palavra. Um grão de areia que aos poucos vai se transformando em palavras, poemas, textos, escritas… Um grão de areia que eu transformo na minha pérola.

 

Desejo apenas uma única coisa: acumular muitos e muitos grãos de areia e que de cada um deles eu possa criar uma pérola diferente. Todos nós temos nossos grãozinhos de areia – assim como as ostras – só devemos saber utilizá-los. Os meus estão aqui na escrita… e os teus?

 

J.G.P.A – Americana, SP – Brasil  “O contador de histórias”

 

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Um comentário em “O dilema da ostra

  1. Muito lindo

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