DISCORDO: O BRASILEIRO NÃO PRECISA “SER ESTUDADO”: PRECISA ESTUDAR

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Fonte: mapaeducacao.com/blog/dez-mudancas-urgentes-para-educacao-brasileira/

“Da escola que calcula à escola que faz pensar”

 

De memes a grandes reflexões, de piadas à seriedade; ouvimos constantemente a afirmação de que o “brasileiro precisa ser estudado” – ora, tenho que discordar totalmente de tal afirmação, seja ela apenas uma brincadeira ou levada a sério. A meu ver, a Educação (com um “e” maiúsculo e seu verbo “Estudar”) não pode ser motivo para piadas em hipótese alguma, educação não é e nem deve ser tratada e abordada como uma brincadeira.

 

O que de fato nos falta em nosso país é uma educação universal e acessível a todas e a todos, responsável, digna, coerente, gratuita e de qualidade bem mais superior do que os níveis atuais. O sucateamento da educação no Brasil é um problema enraizado e um tanto quanto complexo de se entender e por fim, de se modificar. É preciso ter coragem para afirmar que o sistema de educação no Brasil falhou e continua falhando, que seja nas escolas públicas ou particulares, notavelmente nos Ensinos básicos, fundamentais e médios, mas também não podemos deixar de mencionar o Ensino Superior que é tratado ou como sendo uma mercadoria pelos grandes grupos de universidades privadas ou como um espaço reservado para uma certa camada mais favorecida da população no que diz respeito às universidades públicas.

 

Lembro-me sempre muito bem de minha experiência pessoal pelo sistema educacional brasileiro – e hoje, com uma certa distância de tal sistema – posso afirmar que sofri e não foi pouco. Sempre gostava das matérias que pareciam brincadeiras ou que eram julgadas inúteis por meus colegas de classe: Artes, História, Redação, Geografia, Filosofia, Sociologia… Mesmo adorando essas matérias e tendo uma enorme aptidão para cada uma delas, ainda assim eu estava lá, sendo forçado, obrigado a solucionar os teoremas matemáticos mais complicados, a calcular a velocidade e os vetores nas aulas de Física, a balancear equações químicas e assim por diante; e não havia outra opção, eram duas aulas de História na semana contra OITO de Matemática, por exemplo.

 

 

Não estou dizendo que não aprendi nada com as aulas de Biologia ou Trigonometria, estou apenas falando que existe um desequilíbrio muito predominante entre as matérias no que se refere à grade curricular. Outrossim, acredito que esse desequilíbrio é fruto de um enorme preconceito para com as matérias ditas de “Humanas”: coisa de “esquerdista”, de “maconheiro”, de “vagabundo”, de “sem futuro”; ouvia até mesmo questionamentos de colegas e outras pessoas ao meu redor – muito espantados, por sinal – quando eu falava que gostaria de cursar Filosofia: “Mas o que é que você vai fazer com isso? Você vai morrer pobre! Isso não tem futuro”.

 

Entendo hoje que tais afirmações não eram contra minha escolha nem conta a minha pessoa, e sim um conjunto de valores incrustados na sociedade e no sistema educacional brasileiro que coloca sempre em valor e em primeiro plano as matérias que formam Médicos, Engenheiros, Físicos, Biólogos. Quanto orgulho não se via nos olhos de uma mãe, de um pai quando seu filho ou sua filha conseguia entrar em uma faculdade de Medicina ou Engenharia, e acredito que a situação não se alterou muito de lá para cá. Esses valores embutidos e baseados no senso comum do brasileiro são de fato uma das piores sequelas dos Anos de Chumbo (1964-1985) onde a Ditadura Militar abominava todo e qualquer tipo de formação que visasse a formação de pensadores, e ainda não conseguimos nos recuperar completamente de tal vazio intelectual.

 

De um lado temos profissões e carreiras de prestígio, de grandes status e valor sociais, do outro lado temos os “inúteis”, “porque a Filosofia não serve pra nada!” – como afirmavam muitos e ainda continuam com o mesmo pensamento. Pergunto-me: será que os mesmos indivíduos que dizem estas atrocidades com tanta convicção sabem que a Filosofia é a mãe de todas as Ciências? Que os teoremas, as equações, as invenções, a Medicina entre outro campos e áreas só puderam ver a aurora porque milhares de pessoas pararam para observar, pensar, refletir, imaginar, criar? Que se não fosse pelos pensadores e filósofos nenhuma outra ciência existiria?

 

Nenhuma destas questões foram abordadas durante meu percurso escolar, infelizmente. Os pupilos dos professores de exatas que sempre resolviam os problemas em menos de cinco minutos enquanto eu levaria no mínimo vinte, e ainda encontraria o resultado errado, eram os favoritos, os que “tinham um futuro brilhante pela frente”. O resto, era resto…

 

Estudar História para compreender o passado, melhorar o futuro, evitar que se cometam os mesmos erros que nosso antepassados; estudar Geografia para compreender as divisões geopolíticas do mundo, os fluxos migratórios, os nomes dos Oceanos e rios; estudar Artes para compreender que são elas o único traço que um ser humano pode deixar no mundo sobre sua existência; estudar as palavras e seus significados, a magia da poesia. Para muitos isso não é necessário, nem tampouco útil para a sociedade.

***

     O sistema de Educação no Brasil precisa urgentemente de uma reforma de A a Z; precisamos rever os conceitos das grades curriculares, abrir mais espaços para as matérias “inúteis”, equilibrar a Álgebra com a leitura de “O contrato social”. Não podemos continuar aceitando um sistema de Ensino que visa a formação de Médicos, Dentistas, Engenheiros e menospreza a formação de pensadores. Admito que formamos sim excelentes profissionais em diversas áreas, contudo é necessário rever alguns conceitos, quebrar os preconceitos para com as formações de Humanas.

 

O único caminho para a evolução e a existência da Humanidade é o equilíbrio – sempre repito esta afirmação, pois tenho a plena e total convicção que está correta -; precisamos de Médicos, mas também precisamos de Sociólogos, Filósofos, Historiadores, Jornalistas, Psicólogos, Antropólogos… Para evoluirmos, precisamos de “tudo um pouco”. Não é aceitável que um sistema privilegie certas vertentes e marginalize outras; esta é a reforma da Educação que eu defendo, uma educação na diversidade e pluralidade e não uma educação robótica e sistemática.

 

Um sistema de Ensino ideal é – de fato – aquele que forma não apenas bons profissionais – e sim cidadãos; a escola, como todas as outras instituições sociais tem como finalidade: desempenhar um papel social no intuito de formar indivíduos capazes de pensar, refletir, criticar, reivindicar; como deveria ser o funcionamento de todas – sem nenhuma exceção –  instituições sociais (família, igreja, trabalho, espaços destinados à arte, centros acadêmicos…), porém estamos atravessando um período de caduquice de nossas instituições sociais que não estão desempenhando suas devidas funções para que se possa transformar um indivíduo “comum” em cidadão.

 

E assim segue, eu sociólogo, escritor e poeta cumprindo meu papel de inútil na sociedade e tantos outros de meus colegas também seguindo caminhos inúteis; outros são cardiologistas, engenheiros civis, navais, espaciais; cada qual funcionando como uma engrenagem da máquina da sociedade, cumprindo seu respectivo papel e função. Não há um melhor e outro pior, cada um tem sua devida importância no seio da sociedade. Com muita ironia – gosto de repetir e de reafirmar que – fui, sou e sempre serei um “inútil” face a muitos olhares e julgamentos; talvez para alguém eu até possa ser útil…quem sabe?

 

 

J.G.P.A – 05/01/2019 – Americana, SP – Brasil  “Reflexões”

 

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