INSÓLITO RENDEZ-VOUS

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Cemitério da Saudade, Americana – SP, Brasil. Foto: João Guilherme Pozzi Arcaro

 

Dizem que quando estamos ali, frente à frente com Ela, somos capazes de ver nossas vidas passarem como um filme projetado numa grande tela de cinema face a nossos olhos. Que podemos ver – de certa forma – tudo que vivemos, nossas recordações, nossos medos e amores, tristezas e alegrias… nos últimos instantes antes que Ela nos leve uma vez por todas.

Dizem tanta coisa a seu respeito.

Falam de sua frieza e de seu caráter impiedoso.

Do medo que Ela nos inflige.

Que somos dotados da capacidade de voltar no tempo; de viver mais uma vez toda nossa existência – em frações de minutos. E só quando terminamos de assistir a este filme, aí sim podemos partir em Paz e Harmonia com Ela e conosco. Ora, nada disto é verídico; não existe uma projeção do passado, não existe dor nem tampouco amor, tudo que há neste momento crucial que nos separa de nossas vidas carnais e espirituais é um longo diálogo – porém seja mais apropriado usar o termo “julgamento” -; calor e ternura são seus principais traços; Ela tem sabedoria, porque sabe mais do que todos nós reunidos, Ela nos antecede; creio eu que sua presença é muito mais anciã do que a Vida.

 

Sábia e sem sombra, mas nada de foice em uma de suas mãos; e sim, Ela tem um rosto, ou melhor, seu rosto é um espelho, é o meu, o teu, o nosso, o de cada um que a encara. São poucos que têm essa oportunidade de relatar o que eu estou prestes a vos dizer, porque quando vamos ao seu magistral encontro, raramente voltamos.

 

Mas Ela erra mesmo não sendo humana, está também à mercê de seus próprios equívocos; acredito que esteja bem cansada, carrega em seus ombros uma fadiga incomparável; é a única que tem esse supremo poder de nos carregar, embora Ela tenha me dito que as cousas não são bem assim:

 

– Nunca carreguei ninguém – indagou – apenas estendi minha mão a todas e a todos, e sempre me acompanharam de pleno e bom grado.

 

Talvez seja a hora de desmistificar o que nos contaram sobre Ela até hoje, sei que parece assustador e penso que muitos de vocês ainda não estão preparados para mergulhar nessa história; muitos não irão sequer acreditar. Mas se estou aqui – escrevendo estas palavras e linhas – é porque sou fruto de um de seus erros, não segurei sua mão para viajar ao além, mas não foi ela quem me poupou, apenas não era o meu momento, não ainda.

 

Essa é a minha história com Ela; talvez outras pessoas tenham outras versões – algumas destas afetadas pela Morfina ou outros medicamentos que as deixaram grogues e sem discernimento entre o que era real e o que era fruto da imaginação. Todavia, como posso saber se eu estava realmente no meu estado de sobriedade absoluta? Como posso vos garantir isto? Não há garantia, talvez tudo tenha sido apenas um singelo rebento de minha fértil inventividade…

 

Vamos ao que aconteceu – ou pelo menos – no que eu acredito que tenha acontecido naquela noite fria; ao som dos raios e sentindo o peso das gotas d’águas – reluzentes como pérolas no escuro da noite. Lá estava eu, divagando em meus pensamentos mais alegres e harmoniosos e subitamente fui dominado por outros tipos de pensamento, aqueles que nós evitamos enquanto o Sol reina ao longo do dia. Insônia.

 

Nada podia me fazer dormir, nem ao menos cochilar, nem por um minuto sequer.

 

Mente e coração: inquietos. Os batimentos deste último se misturavam como uma perfeita orquestra – com seu barulho de percussão – com as gotas de pérolas que caíam dos céus. Então fui até a cozinha, eu, meu coração e a chuva. Fiz um chá na tentativa de me acalmar e poder encontrar novamente o sono. Em vão.

 

 

Percebi que era inútil tentar lutar contra a insônia – ou melhor – contra os pensamentos que me impediam de dormir. Cedi. Não havia mais nada que eu poderia eventualmente tentar para dormir. Lembrei-me então de alguns vagos episódios da minha infância, de uma recente separação amorosa (no caso, decepção amorosa), vários pensamentos aleatórios e sombrio vinham à tona.

 

Sofri. E com estes pensamentos meu sofrimento só aumentava. Submetido à tanta dor, pena e piedade, sem um resquício de alegria nem felicidade, me deixava cada vez mais me levar por estes pensamentos mórbidos e avassaladores. Depois tudo o eu tinha feito de bom, todas as coisas boas da vida haviam desaparecido, só me restavam as lembranças trágicas e tristes.

 

Foi então, neste ato de desespero, no qual não podia mais enxergar uma saída para tanta angústia; não suportava mais sofrer daquele jeito, que eu decidi aclamá-la. Chamei diversas vezes por Ela; chamava e chamava. Então dentro de mim comecei a gritar em desespero para que Ela aparecesse, não conseguia mais lidar com tantos pensamentos e lembranças que me reduziam a um mero nada, insignificante. Um ninguém.

 

Por mais que eu gritasse em silêncio, ela não chegava nunca. Não sabia mais o que fazer para chamar sua atenção. O desespero só crescia dentro de mim. Corri pelo bosque, entre os galhos das árvores que me arranhavam e machucavam ainda mais, porém me aliviada de certa forma, a cada novo corte, a dor do coração ia embora juntamente com as gotículas de sangue de cada arranhão que as árvores e arbustos me infligiam.

 

Quanto mais eu corria, mais livre me sentia, menos dor e mais sangue. A chuva continuava lá. Eu era um espantalho da noite: coberto de arranhões, sangue, água…e quase inerte. Sem vida. Não parei de correr, sentia o sal de minhas lágrimas tocarem gentilmente meus doces lábios. Só podia me dar conta dos ferimentos quando um clarão de um relâmpago decidia mostrar sua fúria, poder e beleza. Sangue, arranhões, lágrimas, sofrimentos, chuva, relâmpagos. Uma verdadeira gaiola onde eu me encontrava preso, mesmo correndo para bem longe, levava tudo comigo, não tinha como escapar e fugir do meu tormento. Na escuridão completa não percebi que à minha frente havia um fosso.

 

Caí. Era profundo, caí por vários segundos ou minutos e nunca chegava ao fundo. Parecia infinito. Mas foi durante esta queda que todos meus arranhões se curaram – como se fosse mágica – as lágrimas já não caíam mais, e o melhor de tudo durante aquela queda: não sentia mais nada, nenhum pensamento ou sofrimento me atormentava.

 

Perguntei-me, “estou morto?”. Mas dessa vez eu realmente pronunciei essas duas palavras e para minha surpresa, obtive uma resposta. Uma voz repleta de ternura – como a de uma mãe que fala com seu filho recém-nascido, ou de um filho que dirige a palavra uma última vez ao seu pai em seu leito de morte – essa voz me disse simplesmente: “Não, ainda não, veremos…”.

 

De certa forma era reconfortante saber que eu não tinha morrido, mas a palavra “ainda” me assustou. O que aconteceria depois? Eu continuava naquela queda sem fim e sem respostas. Implorei para que tudo parasse, gritei, me exaltei, fui tomado e carregado por uma fúria, por uma tristeza de não saber o que estava acontecendo.

 

Pare! Pare! Pare!

 

Abri os olhos e enfim pude ver o fundo daquele buraco e eu estava bem próximo de me espatifar nele. Mas lentamente – novamente como mágica – cheguei ao solo suavemente, como se eu estivesse flutuando no espaço, e então meus pés tocaram a terra.

 

Havia uma luz muito forte e quente que me cegou por alguns segundos. Logo vi o semblante de uma pessoa, não tão pequena nem tão grande, digamos, da mesma altura que eu próprio. Eu, este semblante, e duas portas. Era tudo o que havia no fundo do fosso.

 

E de repente senti um toque quente e carinhoso em meu ombro esquerdo. Estava aliviado e destemido. Porém não sabia como reagir, deveria falar com esta pessoa? Deveria esperar?

 

– Não deve esperar, ora! Tanto me chamou esta noite para ficar quieto? – disse o semblante, que eu ainda não havia identificado.

 

Fiquei mudo e sem reação. Sabia que meu encontro aquela noite era com Ela, com a Morte.

 

Por mais assustador que possa parecer, encontrar-me com a Morte, não me assustou nem um pouco; foi bem menos medonho do que adentrar em uma igreja gótica sozinho com os olhares dos corvos em mim fixados.

 

– Chegou minha hora não é mesmo? Perguntei à Morte, impávido e firme.

Ela não me respondeu, sacudiu os ombros e sentou; para a minha surpresa. Tudo era muito bizarro, no entanto me parecia normal, natural.

 

– Não lhe convoquei para vir ao meu encontro, foi você quem me procurou. Chegou sua hora? Devolvo-lhe a pergunta…

 

Eu não estava procurando a Morte aquela noite, longe disso, apenas uma maneira de livrar-me de toda dor e todo calvário que sentia. Talvez a Morte seria a única solução para me libertar de tanto peso que há tempos carregava em meus ombros, sozinho.

 

– Grandiosa e impiedosa Morte! Não lhe procurei. Gostaria apenas de me libertar desta dor que me domina e me destrói.

 

– Não venha com tanta formalidade. Grandiosa? Impiedosa? Nada disso sou. Me disse a Morte. Mas se quer realmente se livrar de teu fardo de viver a única maneira é passar pela porta que está atrás de mim.

 

– E o que acontecerá comigo se eu entrar por esta porta? Perguntei, um tanto assustado, mas também muito curioso. Não sentirei mais nenhuma dor? Nenhum pesar?

 

– Não sentirá mais nada, nem dor, nem alegria. Irá direto para sua cama onde não conseguia dormir e nunca mais irá acordar no mundo dos Vivos.

 

– Então se eu atravessar esta porta… irei morrer?

 

– Não seja tolo! Você apenas sairá do mundo dos Vivos e sua trajetória continuará no mundo dos Mortos, onde eu reino!

 

Não sabia o que dizer. Era de fato uma baita de uma proposta, apenas atravessar uma porta e me libertar de tudo que me fazia mal, mas também abdicar de toda alegria e felicidade. Não hesitei e me dirigi até a porta, coloquei minha mão na maçaneta. Fui interrompido pela Morte, que me apanhou pelo calcanhar direito e me fez desabar ao chão, à sua frente.

 

 

Lá estava eu, no fundo de um buraco escondido, perdido no meio de um bosque, face a face, encarando o mais temido dos seres de todos os tempos e por todos os Vivos: a Morte.

 

– É um caminho sem volta. Se por aquela porta passar, tudo deixará do mundo dos Vivos e virá vagar para todo o sempre, para a Eternidade, no Reino dos Mortos. Não há dores, nem tampouco euforias, não há amores, não há nada que vocês – humanos – adoram. Existe apenas Eternidade e Descanso. Pense bem antes de fazer uma escolha. Sei que não é meu lugar, mas permito-me de lhe aconselhar: acredito que ainda seja cedo demais para que você atravesse esta porta. Enfim, é apenas  minha opinião, mas afinal, quem sou eu, se não a Morte?

 

– Todos têm essa escolha? Todos podem escolher entre os dois Reinos? O dos Vivos e o dos Mortos? Perguntei na minha mais profunda humildade e ingenuidade.

 

– Nem todos. Às vezes eu preciso trabalhar como Juiz e levar certas pessoas que não querem abandonar suas vidas. Incompreensível, um enigma de fato, mas não posso culpa-las, elas não sabem o que jaz aqui, atrás desta porta…

 

– Então o Reino dos Mortos é melhor?

– Os dois são bons, mas para cada um deles, existe o momento certo.

 

– E os bebês, que mal nasceram e você já leva para o Reino dos Mortos! Sem que eles possam gozar da Vida! Isso é crueldade!

 

– Você está me questionando? Ousa a colocar em jogo o meu julgamento? Questiona a Morte? Disse Ela furiosa, mas ao mesmo tempo com um tom de sarcasmo e doçura.

 

– Jamais, só estava me perguntando… Mas por ser a Morte, deve saber exatamente o que faz.

 

– Estou cansada desse meu trabalho! Sempre as mesmas perguntas, as mesmas dúvidas. Já lhe acordei demasiadamente de meu tempo. Vai ou não atravessar a porta?

 

Já estava decidido e determinado para encarar meu novo destino, minha nova “vida”, e juntar-me ao Reino dos Mortos. Levantei-me suavemente e mais uma vez encarei a porta. Não respondi para a Morte com palavras, meu ato já servia como uma resposta. Então, percebi que ela me olhava atentamente. Virei-me para trás.

 

Seus braços estavam machucados. Arranhados por galhos de árvores e arbustos. De seus olhos escorriam lágrimas, estava molhada numa mistura de chuva e sangue. Eu podia sentir o sofrimento da Morte.

 

Foi aí que tentei abrir a porta para chegar ao Reino dos não-Vivos. Não consegui. A porta não se abria. Tentei com mais vigor e força. Em vão. Nada fazia com que aquela porta se abrisse. Fui vencido pela frustração. E por fim, desisti. Todo meu esforço era inútil. Mas ainda assim uma dúvida me restava, e eu precisava saber quem era a Morte. Aquilo me deixava com comichões e uma crescente inquietude; a dúvida sempre fora minha grande inimiga.

 

Ajoelhei-me face a Morte por uma última vez – pelo menos naquela noite – e olhei no fundo de seus olhos; cheguei bem perto. Era como se eu estivesse encarando um espelho. Todo o meu sofrimento estava lá, naquele semblante, na Morte. Aos poucos a luz que domina seu rosto foi padecendo.

 

E assim eu vi, claramente – como um lindo céu de primavera – o meu próprio rosto na face da Morte. Entendi. Eu era Vida e Morte. Vagando e caminhando pela corda bamba; entre dois Reinos. Na dualidade da Escolha…

 

 

J.G.P.A – 11/01/2019 – Americana, SP – Brasil “O contador de histórias”

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2 comentários em “INSÓLITO RENDEZ-VOUS

    1. Sim! Por que temer a Morte? Não seria Ela parte de nossa essência? De nosso ser? A Morte precisa parar de ser um assunto TABU e marginalizado se queremos realmente aprender a lidar com ela… Humanizar a Morte é conhecer – não apenas os limites de nossa existência – mas aceitar que um dia Ela chega… para tod@s!

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