NADA DE NOVO NO FRONTE

bandeira vermelha

 

   Ovacionado por algumas centenas, esquecido por alguns milhares, menosprezado por milhões, motivo de chacota internacional, prova de amadorismo e conservadorismo; e uma sedenta e incansável vontade de disseminar o ódio: domingo passado, no dia 1º de janeiro tomava posse o novo Chefe de Estado Brasileiro, Jair Bolsonaro. Muitos analistas e cientistas políticos julgaram a cerimônia como sendo um grande fiasco em comparação com as posses de presidentes anteriores; admito que preciso discordar de tais opiniões, pois o ódio imperava em Brasília naquele domingo não tão distante.

 

   Um discurso recheado de promessas vãs e incompreensíveis, a presença de um tradutor de libras negro – para acalmar a oposição e desconstruir a imagem do “ex-candidato racista – uma primeira dama “quebrando o protocolo” e discursando antes do Chefe de Estado – outra falha tentativa de mostrar que Bolsonaro não é machista, misógino e para tentar apaziguar mulheres, meninas, homens e meninos que lutam pelos direitos das mulheres; um verdadeiro espetáculo midiático para desconstruir a imagem que o próprio presidente criou de si mesmo durante seus anos como parlamentar e depois como candidato.

 

   Tudo o que ocorreu na investidura de Bolsonaro não passa de um processo socialmente construído visando uma utópica união das brasileiras e brasileiros, mas o recém  empossado presidente parece não compreender que nunca houve união entre nós, que não foi um partido que criou a polarização política e ideológica em nosso país; isso já existe há muito tempo, há tanto tempo que eu ousaria a dizer que a não unificação do Brasil existe antes mesmo deste último carregar para si tal nomenclatura. Somos todos tão singulares, diferentes, com bagagens culturais, trajetórias pessoais únicas e formações éticas e morais diversas; somos ricos e pobres, negros e brancos, índios e europeus, asiáticos e árabes; somos uma miscigenação complexa e extravagante. Esse fato nos leva a defender nossos próprios interesses do grupo do qual pertencemos, tornando inviável a união homogênea e unânime de nossa nação e povos que nela habitam. Não Bolsonaro, você não poderá unificar o Brasil; você não deve governar para as maiorias porque elas simplesmente não existem, somos o aglomerado de centenas de minorias – por isso não conseguimos constituir “uma maioria”.

                                                                   ***

   O grande momento da posse para mim foi o discurso no parlatório do Palácio – confesso que até agora não consegui digerir as palavras pronunciadas pelo presidente ao final de sua declaração – uma prova ímpar de ignorância e um discurso populista prometendo libertar o Brasil do socialismo. Isso mesmo, não sei em que época ou eu quem governo, nós brasileiras e brasileiros, vivemos em um regime socialista. Eu – talvez – tenha ficado em coma nesse período e não me atualizei…? Mais uma vez Bolsonaro fez prova de sua mais profunda e crua ignorância, porém o pior de tudo isso é que tal pronunciamento soou como uma melodia de Debussy nos ouvidos daqueles que acreditam que nós já vivemos uma era socialista em nosso país; aplausos…

 

   O mais assustador desse pronunciamento presidencial foi a seguinte afirmação e comprometimento de Bolsonaro para com à nação brasileira:

“Essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela.”

 

   Infelizmente nossa bandeira já é vermelha, mas não uma bandeira socialista nem tampouco comunista, mas uma bandeira banhada de sangue de tantas brasileiras e inúmeros brasileiros que já morreram por amor ao país. Não precisamos de mais sangue, não precisamos de mais mortes, não queremos o sangue do novo governo para “mantê-la verde e amarela”; sangue demais já foi e é derramado diariamente. É tanto sangue que se espremêssemos a bandeira correria um rio vermelho. Tanto sangue inocente, policiais que morrem todos os dias, ativistas, mulheres, homens, crianças, idosos, negros, moradores de rua, trabalhadoras e trabalhadores em condições precárias, índios, refugiados, imigrantes, militares… Muitos já morreram, continuam morrendo tingindo cada vez mais nossa bandeira da cor vermelha.

 

 

   Não presidente, não precisamos de mais sangue em nossa bandeira, em nossos cotidianos, em nossas vidas; precisamos de paz, de harmonia, não de guerra e ódio que você pregou durante toda sua vida. E acima de tudo precisamos da verdade, basta presidente, basta… Chega de mentiras, calúnias, fatos incompletos, desmoralizações inescrupulosas. Quem está pregando ódio em nosso país é você, Bolsonaro. Com suas palavras, declarações, posições radicais e extremistas, jogando grupo contra grupo, indivíduo contra indivíduo. Queremos uma nação que honre sua bandeira que é fundada com os primórdios da corrente positivista, queremos um Brasil que tenha de fato e na prática “O amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. Onde está o amor? (em meio ao ódio imperante e dominante?) E a Ordem? (pergunto-me, nas pontas das carabinas?) E o Progresso? (em meio a tanto retrocesso…).

 

 

J.G.P.A – 05/01/2019 – Americana, SP – Brasil – “ Reflexões”

 

assinatura posts

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s