MMXVIII: UM ANO MARCADO DE “ENCONTROS & DESPEDIDAS”.

 

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O que eu aprendi neste ano.

Nem tudo o que aconteceu foi totalmente ruim, muitos fatos bons marcaram o meu ano de 2018, e aqui, neste último texto que entrego a vocês minha trajetória e meus caminhos percorridos ao longo do ano. Meu ano começou com uma despedida intensa, mesmo já estando habituado com este tipo de despedida: a morte. Dia primeiro de janeiro de 2018, lá estava eu, na França, com amigos preparando o primeiro almoço do ano, tomando vinho, cerveja, contando piadas e me divertindo; o celular da empresa toca – sim, eu estava de plantão. Precisava de toda urgência reganhar a cidade de Lyon – que ficava a mais ou menos uma hora de onde eu estava para ir no domicílio de uma família: um defunto me esperava. Na época eu trabalha como Responsável de Agência Funerária, mas minhas funções iam muito além, fazia plantões e permanências telefônicas quando ninguém queria fazê-las, carregava corpos dos hospitais, das casas ou de qualquer outro lugar onde o óbito havia acontecido, para os necrotérios; desempenhava também o nobre papel de “mestre de cerimônia” para acompanhar a família do começo ao fim, para oferecer o melhor do meu serviço e da minha pessoa (passando muitas vezes por cima das “lógicas de metas e rentabilidade” estabelecidas pelo patrão). Usava do meu lado sensível e humano para ajudar ao máximo uma família que acabara de perder um parente. Considerado como um subemprego, de todos os que eu realizei até o dia de hoje, este foi o melhor, o mais humano…

 

Morte súbita; infarto; levara o pai, avô de família naquele primeiro dia de 2018, e eu estava lá, usando meu terno preto, minha gravata preta e – apesar da correria – tive tempo de lustrar meus sapatos; não podia chegar na casa de um família onde havia um ex-vivo trajando qualquer vestimenta, tinha que ser apropriada para tal evento. Para muitos que contei essa anedota a reação foi de choque, de espanto, para mim foi uma experiência incrível da qual nunca me esquecerei. Naquele momento percebi que tinha suprido todos os desejos da família para realizar todos os seus desejos para que, com dignidade, amor e compaixão pudessem se despedir de seu defunto da maneira mais honrada; pensei: quero fazer este trabalho toda minha vida (mal sabia eu que posteriormente a minha trajetória mudaria de forma brutal).

 

Dia 18 de janeiro de 2018, primeiro dia do ano que iríamos receber uma estagiária aquele ano, estava ansioso, pois adorava contar anedotas sobre o trabalho (ainda adoro) e passar para frente o que eu sabia fazer, minha visão do ramo funerário, meu “savoir-faire”. Loira, vestida inteiramente de preto – exceto por um lenço que usava no pescoço, que este, era branco – fiquei imobilizado, não sabia reagir, era até mesmo difícil pronunciar as palavras “Bom dia” ou “Seja bem-vinda, meu nome é João”. Foi a primeira paixão, o meu primeiro amor de 2018.

 

Maèva era seu nome, no final do primeiro dia de seu estágio, já tínhamos recebido duas famílias, carregados dois defuntos, conversado muito. Terminamos lá pelas nove horas da noite; dividimos algumas mexericas e bananas que o patrão tinha nos deixado. Nos despedimos com um beijo úmido em nossas bochechas; e naquela mesma noite conversamos por horas e horas – até um de nós dormir, não me recordo se foi ela, ou eu – por mensagem. Na sexta-feira daquela semana, fomos até um pub para comemorar o fim de sua primeira e intensa semana de estágio; foi lá onde demos nosso primeiro beijo. Quando fui trabalhar no sábado, estava possuído por uma energia e motivação que não tinha tida há muito tempo, e Maèva não cessava de me mandar mensagens. Até que – para minha surpresa – umas 16h30 Maèva chegou na agência, trazendo doces, chá, conversamos até a hora de fechar a loja, e lá no fundo, na salinha de depósito da agência fizemos o que eu já esperava que iríamos fazer…

 

Estava profundamente apaixonado, enviava cartas à Maèva, saíamos sempre que possível para tomar uma cerveja; até o dia em que ela me revelou que namorava uma pessoa e que morava com ela e por isso não podíamos nos ver em sua casa. Pouco me importei com este fato, pois o amor que eu sentia era grande demais e nada iria atrapalhar isto: cego de amor. Daí pra frente o declínio começou, no trabalho nós sempre tínhamos nossos momentos juntos, entre os cadáveres, nas horas de almoço, mas ficava cada vez mais difícil e raro de vê-la durantes as noites. Seu estágio acabara e ela me presentou com livro de mais de 1200 páginas, que assinou e escreveu as seguintes palavras “Essa é sua chance de me conhecer melhor”; nunca li tão rápido um livro em minha vida.

 

Não sabia que seria a última vez, fomos para a minha casa e fizemos amor a noite toda, bebemos vinho, conversamos, fizemos até planos para o nosso futuro; ela estava determinada a deixar seu namorado para ficar comigo. Tudo estava planejado. Mas eu precisava trabalhar no dia seguinte; cheguei atrasado, porque Maèva não me deixava ir embora, não me deixava sequer sair da banheira. Um último cigarro e um xícara de café, e fomos embora. Ela estava com medo de chegar em sua casa, pois seu namorado estaria à sua espera. Não tive notícias dela por dois ou três dias; mas logo depois ela voltou para concluir seu estágio, com um olho roxo… Por mais que ela me falasse para não me preocupar e me contasse mil versões diferentes daquela história, eu sabia o que realmente tinha acontecido. Foi num sábado, pouco tempo depois daquela segunda-feira marcada pelo olho roxo que ela me convidou para ir à sua casa; cheguei cedo, estava de folga. Deitamos em sua cama, era a última vez que dividíamos uma cama juntos.

 

 

“João, eu não vou me separar dele, está tudo acabado entre nós”. Meu mundo desabou. Tanta alegria, tantos sorrisos, tantas felicidades, tudo isso se terminava ali, com uma só frase. Eu sabia que ela seria contratada pela empresa, e eu não poderia dividir o mesmo espaço com ela, então fiz de tudo para que ela fosse contratada(acredito que até hoje ela não saiba que em razão da minha ótima relação e amizade com o patrão, eu o persuadi a contratá-la) e logo depois pedi demissão, isso foi em abril. Ela foi o melhor encontro do meu ano de 2018 e ao mesmo tempo o mais devastador e destruidor; daí pra frente tudo se tornou escuro, sombrio, triste… Era difícil me levantar da cama todos os dias, às vezes esse sentimento volta, mais frequentemente do que eu gostaria que voltasse…

 

Passava a maioria das minhas noites nos bares da agitada Lyon, conhecia pessoas novas, até que conseguia me divertir, mesmo se fosse de maneira efêmera. Ninguém conseguia substituir minha Maèva, minha “Mimounette” como eu a chamava.

***

Dia 16 de abril meu pai chegou na França e de lá estávamos nos preparando para mais uma nova aventura, iríamos para Itália, e foi dia 23 que lá chegamos, na véspera do meu aniversário de 25 anos. Foram tantas coisas ótimas, momentos entre pai e filho, diálogos, conversas, cervejas, aventuras… Prefiro – por ora – não entrar em detalhes sobre esses momentos que vivi com meu pai na Itália, senão esse texto provavelmente viraria um livro.

 

Foi em julho que minha mãe e minha tia chegaram na Itália para que com meu pai e eu pudéssemos passear, conhecer lugares, dividir experiências, rir; ser uma família. Foi a melhor viagem da minha vida, com as melhores companhias, conheci os lugares mais incríveis, tive a oportunidade de me reconectar com o meu “eu” espiritual. De visitar a casa de Julieta e sua possível tumba; de contemplar a beleza dos canais de Veneza novamente; de visitar a cidade de Assis e suas incontáveis igrejas; estava no presente, mas viajando no passado. O que eu levo dessa viagem se restringe aos itens listados a cima, a maior viagem que eu fiz em 2018 foi uma viagem interna, no meu ser, no meu “eu”, uma viagem de autoconhecimento (essa viagem não acabou, ela apenas começou esse ano…).

 

Tomei então uma decisão que mudaria para todo o sempre minha vida: me tornar escritor. Voltei ao Brasil e sabia que muitas pessoas, muitos encontros ficariam apenas na memória; que nunca mais veria nem prosearia com certos indivíduos, mas a vida é realmente feita disso, de encontros e despedidas. Assim nasceu o Litteramundis e também a vontade me expressar por versos de poesias, por prosas das minhas crônicas, pelas palavras que redijo com cautela e cuidado. No entanto não fora uma surpresa, no fundo eu já sabia que estava fadado a esse destino de escritor, de artista. No começo tinha medo de ter poucas leitoras e poucos leitores, mas aí fui entender que não era a quantidade de pessoas que se interessam pelo meu trabalho que conta; se uma pessoa ler o que eu escrevo, para mim já é o suficiente.

 

Aprendi em 2018 de nunca abandonar meus sonhos, de nunca abaixar a cabeça e de sempre continuar lutando por aquilo que acredito, mesmo se eu precisar enfrentar tempestades, batalhões, críticas, humilhações, retaliações. Aprendi também que sou capaz de fazer a diferença num Planeta com 7 bilhões de pessoas. De fato 2018 foi o ano do aprendizado e do desenvolvimento e idealização de vários projetos e metas, dentre eles: publicar meu primeiro livro.

 

Obrigado 2018, obrigado a todas e a todos que sempre me apoiaram e acreditaram no meu trabalho! Despeço-me deste ano em total harmonia e empatia; não poderia ter sido melhor! Nos encontramos aqui – no Litteramundis – em 2019 com muitas novidades, arte, amor, poesia, reflexão, leitura, escrita, palavras…SONHOS.

Afinal a vida é feita de “Encontros e Despedidas”

[…]São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar[…]

Compositores: Fernando Brant / Milton Silva Campos Nascimento

 

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J.G.P.A – 23/12/2018 – Americana, SP – Brasil

 

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