DOIS MIL E DEZOITO EM QUATRO IMAGENS

Um breve retrato sociológico do Brasil de 2018.

 

Parecia eterno, parecia até mesmo que nunca iria acabar – um absurdo, concordo – porém o ano de 2018 foi longo e agora está chegando ao fim. Preciso admitir que todo ano nos carrega sempre para fatos e acontecimentos que nos são totalmente estranhos, desconhecidos. Cada ano iniciamos uma nova jornada com seus desafios, sofrimentos, dores, conquistas, alegrias, euforias, emoções, tristezas. Um ano que começa é de fato uma caixa de surpresa, nunca sabemos o que poderemos encontrar dentro da mesma, mas quando o ano chega ao fim, podemos olhar para o passado e analisar os eventos que nos marcaram.

 

Existem dois tipos de acontecimentos que nos marcam durante o curso de um ano: de um lado tudo o que diz respeito à nossa individualidade e subjetividade, ou seja, tudo aquilo que cada um nós atravessamos em nossas vidas pessoais, em nossas mentes e em nossos pensamentos – dos mais alegres aos mais sombrios -; do outro lado temos os eventos coletivos e objetivos, em outras palavras, todo fato que atinge a totalidade da população direta ou indiretamente, tendo um forte impacto (seja ele positivo ou negativo) na esfera social. Em suma, o que me afeta em minha esfera subjetiva é na maioria das vezes um fato desconhecido aos olhos de outro indivíduo; e algo que acontece em um contexto mais amplo que é de conhecimento de todos os atores sociais têm esse poder de me afetar e também todos os outros seres que comigo vivem; mesmo se somos afetados de maneiras e jeitos diferentes, os fatos macro sociais são impactantes para todos nós.

 

Dois mil e dezoito está chegando ao fim e está na hora de fazermos uma retrospectiva cronológica com o intuito de analisarmos quatro fatos macrossociais que afetaram, afetam e ainda afetarão todas as brasileiras e todos os brasileiros. A caixa de surpresa foi aberta… Infelizmente a surpresa não foi boa para nós brasileiras e brasileiros, talvez o termo “caixa de surpresa” não seja o mais adequado para qualificar o ano de 2018; acredito que os termos como “cavalo de Tróia” ou até “caixa de Pandora” seriam mais apropriados para traçarmos uma breve análise social do cenário brasileiro atual.

 

Todos os fatos que irei citar comoveram, emocionaram, alegraram, uniram, dividiram, fizeram rir ou chorar, causaram silêncio ou barulho, manifestações ou submissões, criaram ou desfizeram laços, enfim, de uma forma ou de outra esses fatos nos tocaram de uma maneira diferente e também em intensidades diferentes. Gostaria de – antes de começar a análise propriamente dita de cada fato –  esclarecer que existem sim outros fatos que impactaram a sociedade brasileira ao longo deste ano que não serão abordados aqui; não porque eu não os julgo importantes ou relevantes, mas como ator social, faço uso da minha subjetividade para escolher os fatos que irei analisar, pois estes foram os que mais ME marcaram e que a MEU ver causaram e ainda causarão variadas repercussões no meu, no seu, no nosso futuro como nação brasileira. (Ressalva: para os amantes de futebol, nenhum desses fatos é relativo à Copa do Mundo…).

 

 

FATO nº 1: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

 

Marielle s2
Fonte: https://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/noticia/2018/03/canal-brasil-exibira-programa-com-marielle-franco.html

Dia 14 de março de 2018. Tristeza. Luto. Covardia. Silêncio. O ano ainda estava começando e o brutal assassinato da vereadora da cidade do Rio de Janeiro: Marielle Franco da Silva e seu motorista Anderson Gomes acontecia na calada da noite na região central da cidade. Mulher; negra; lésbica; defensora dos Direitos Humanos; cria da favela; oposição; contra intervenção militar; ativista; esperança; inspiração…

 

Calaram a voz de Marielle, calaram as vozes de milhares de brasileiras e brasileiros, principalmente dos cariocas, dos pobres, dos favelados, da juventude. Mataram Marielle, tiraram sua vida por motivos ainda desconhecidos (mesmo tendo algumas pistas e uma investigação até o momento falha, tenho minhas próprias teorias…). Lembro-me como me senti quando soube da tragédia, pude ver, presenciar e sentir a comoção e a tristeza (não apenas minhas e dos outros brasileiros que viam lá de fora esse ato covarde) mas dos estrangeiros, dos defensores dos Direitos Humanos, dos meus colegas de trabalho, dos meus amigos… No Brasil e no mundo a repercussão foi gigantesca; imensa; e tinha que ser.

 

As máscaras caíram para todos, não éramos mais o país do Carnaval e futebol, naquele dia nos tornávamos DEFINITIVAMENTE o país que não respeita os Direitos Humanos, e que mostrou sua verdadeira cara: racista, homofóbica, misógina, antidemocrática, ASSASSINA! Ironia do destino? Marielle pronunciou dias antes de ser morta “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. E assim morreu Marielle, antes de ver o fim da guerra.

 

Mas sua morte não foi e não será em vão! Somos e seremos – eternamente – todas e todos Marielle Franco; semente…

 

FATO nº 2: Outra maneira de calar a oposição.

 

Former Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva is carried by supporters in front of the metallurgic trade union in Sao Bernardo do Campo
Luiz Inácio Lula da Silva: apoio dos militantes no dia de sua prisão (Francisco Proer/Reuters)

 

Dia 7 de abril de 2018. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até então favorito em todos os cenários possíveis para ganhar as eleições presidenciais do Brasil de 2018 foi preso de forma arbitrária e sem fundamentos. Um processo raso, com falta de provas concretas, apenas acusações vazias e apoiadas por partidos políticos que encabeçaram o Golpe judiciário, midiático, parlamentar que começou em 2014 com a derrota do candidato à presidência do PSDB. Golpe que conseguiu derrubar uma presidenta legitimamente eleita pelo voto popular, num conchavo entre o poder judiciário e dos partidos políticos PMDB (hoje, MDB) e do PSDB.

 

A consequência deste Golpe trouxe Michel Temer ao poder que não deu continuidade ao plano de governo de Dilma Rousseff, ou seja, Temer não cumpriu com o seu papel de vice, mas criou um novo governo (ou melhor, desgoverno) em 2016 e daí pra frente a situação do Brasil, das brasileiras e brasileiros entrou num declive abrupto, só piorando o que já estava muito defasado. Mas como era de se prever, o Golpe não acabaria por aí, não bastava “apenas” tirar Dilma do Planalto, a arquitetura deste Golpe foi um verdadeiro “truque de mestre”. Era preciso acabar com a maior e mais popular figura e liderança política do Brasil desde a redemocratização após a Ditadura Militar (ou “Os Anos de Chumbo”): Lula.

 

Usando uma espécie de fantoche parcial e partidário, mais conhecido como Juiz Federal Sérgio Fernando Moro do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), Lula foi preso e levado para a “República de Curitiba”. E assim o Golpe ganhava cada vez mais forma. Sem a maior liderança política no páreo, a baixa aprovação popular de Temer (o que lhe permitiu aprovar medidas e mudanças tenebrosas para a Nação, como a PEC do “Fim do Mundo”, entre outros; o Brasil abria espaço naquele exato momento para eleger o pior ser humano já visto no Brasil; não uso o termo de “pior político”, pois antes de mais nada: Jair Messias Bolsonaro é e representa o que há de pior nas pessoas, a verdadeira escória da Humanidade. Um retrocesso sem igual. E essas teorias se confirmaram logo após sua vitória nas eleições, Bolsonaro irá governar com os militares, com o MDB e o PSDB, todos os integrantes e criadores do Golpe. A única forma que esses partidos acharam para voltar ao poder foi através desse incansável Golpe desde 2014, pois nas urnas, nós sabemos – com muita convicção – que não teriam nenhuma chance de se elegerem ou ganhar um Ministério se Lula fosse novamente eleito Presidente. E os militares ficaram de fora da reforma da Previdência, assim como os membros da tão desabonada e incrédula casta judiciária brasileira.

 

Mas eles não foram os únicos a se beneficiarem com prisão política (sim, Luiz Inácio Lula da Silva é uma vítima do Golpe e será sempre considerado um preso político) e injusta de Lula beneficiou muita gente, principalmente o “super-herói” à la brasileira: Sérgio Moro, que assumirá a pasta do “Super Ministério da Justiça” no Governo Bolsonaro.

 

Entretanto, a prisão de Lula, não foi apenas um ato covarde e injusto, pois a mesma causou uma repercussão nacional e mundial. Levou à união das esquerdas no Brasil, uma onde de manifestações pró-Lula vinda do cidadão comum até de grandes pensadores, filósofos, artistas, sociólogos, brasileiros e estrangeiros. A prisão de Lula contentou muita gente, mas também desagradou, fez chorar, causou emoções diversas e variadas, e principalmente deu início à “Resistência” que já começou para com a “Era Bolsonaro”. Não é preciso gostar de Lula para ver que estes fatos e teorias são verdadeiros, tão verdadeiros que estão em prática; mas é necessário admitir que desde a redemocratização do país Lula foi o melhor Presidente do Brasil, em todos os aspectos: da política interna e nacional à política externa e internacional. Uma outra consequência da prisão de Lula foi a levada de uma total e completa desmoralização das já desmoralizadas instituições brasileiras… E ao contrário do brutal assassinato de Marielle Franco, podemos presenciar que existem diversos meios de calar a oposição e as lideranças políticas no Brasil: assassinando ou aprisionando um inocente (com a ajuda de um Judiciário falho).

 

 

FATO nº 3: ZAP-ZAP

 

fake-news
Fonte: https://ecommercenews.com.br/artigos/dicas-artigos/fake-news-seja-filtro-e-nao-esponja/

 

Não podemos nos esquecer que o ano de 2018 foi marcado pela maior onda de notícias falsas, caluniosas, desvirtuadas, mentirosas, falaciosas, desrespeitosas, conhecidas como “Fake News”. Nas redes sociais, nas discussões, nos canais de YouTube, até mesmo nos grandes canais e meios de comunicação as notícias falsas e sem fontes nem fundamentos foram difusas sem pudor com a intenção de massacrar as esquerdas brasileiras e por fim eleger o pior presidente da História do Brasil (mesmo sem ter tomado posse, Bolsonaro, é de fato, a “fraquejada” da democracia(?) brasileira.

 

Quando não há um verdadeiro plano de governo, ou quando as qualidades de um indivíduo social são tão inexistentes só existe uma maneira deste mesmo se sobressair e sobrepor em relação aos outros atores sociais mais preparados, competentes e inteligentes: a mentira. Se eu não possuo qualidades ou se eu produzo um trabalho de péssima qualidade, o jeito mais fácil para valorizar o meu feito é desvalorizando o que foi realizado pelo outro, mesmo que eu precise mentir, porque o meu trabalho tem que ser melhor do que o dele; mas isso por si só não basta, eu preciso convencer uma massa da qualidade do meu trabalho e para cegar essa massa eu invento, crio as teorias e notícias mais falsas e caluniosas possíveis para derrubar meu adversário e atrair a massa à minha causa. A mentira é um instrumento de poder extraordinário e com a ajuda de celulares, computadores, redes sociais, a mentira foi tão repetida em 2018 que muitos começaram a acreditar na mentira, mas não é porque há pessoas que acreditam nas mentiras que elas se tornam verdades; ainda assim o poder das “fake-news” foi devastador esse ano, levando-nos ao 4º e último fato (tenebroso, assustador e destruidor) de 2018: a eleição de Bolsonaro.

 

FATO nº 4: “As minorias devem se curvar às maiorias”.

 

nojo
Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/314836-1

 

Dia 29 de outubro de 2018. Jair Messias Bolsonaro, fantoche do Golpe, a última cartada, a carta na manga, o coringa, o fantoche, o bobo da corte, a marionete do MDB e do PSDB foi eleito Presidente do Brasil… Uma verdadeira catástrofe para o futuro do Brasil e para toda a Humanidade. Misógino, homofóbico assumido (imunidade parlamentar), racista, apoiador da Ditadura, defensor da tortura e fã de torturadores, sem escrúpulos, incompetente, vazio, despreparado, perigoso, ameaçador, apologista de crimes (entre eles: estupro, “fuzilamento da corja vermelha”, assim por diante), corrupto, escravo do imperialismo Trumpista, contra indígenas e quilombolas, contra movimentos sociais, militarista. Uma espécie de um rascunho, de um esboço de um quase ditador mequetrefe.

 

Doze milhões de reais investidos em fake News para eleger o pior ser vivo do Planeta para presidir o meu, o seu, o nosso país. Não é uma questão partidária, é uma questão Humana, não importa se eu sou de esquerda, você de direita, mas precisamos concordar no seguinte fato de que: Bolsonaro é a personificação de todos os males, preconceitos, violências, mentiras, falácias e falsos moralismos reunidos em um só ser. Temo pelo futuro do Brasil, por isso escrevi, escrevo, continuarei escrevendo até o meu último suspiro! Acredito que a arte (faço um apelo a todos os artistas) é a melhor forma de resistência; deixemos a violência para eles, nossa resistência já é e será imensa, juntos vamos vencer a nuvem fascista que paira sobre os céus do Brasil.

 

***

 

Dois mil e dezoito. O ano da catástrofe no cenário social brasileiro, mas ainda assim guardo a esperança de quê é possível melhorar; face as tragédias citadas acima – tento – todos os dias quando acordo me manter otimista e motivado para não abandonar as lutas que travo pelos meus ideais e crenças. Para mim, desistir nunca foi uma opção…

 

 

J.G.P.A – 21/12/2018 – Americana, SP – Brasil

Categoria: “ O MUNDO EM IMAGENS”

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