A CARNE MAIS BARATA DO MERCADO

A CARNE MAIS BARATA foto
Almoço em família – Fonte:meubistro.com/blog

 

Era domingo, a família estava reunida em plenitude e harmonia para a sagrada confraternização de todo domingo – era um ritual – que não podia passar em branco. Não importava o tempo que fazia, se estava sol ou chovendo, quente ou frio, o mais importante de tudo era de fato a reunião familiar.

 

Cada membro com suas particularidades e costumes únicos; agiam. Uns preferiam uma cerveja, outros optavam por um vinho ou até mesmo uma caipirinha, bem gelada. Era um hábito tão corriqueiro que não havia necessidade de se expressarem com palavras para saber quem ia fazer o quê, quem iria trazer a bebida, a comida, o protocolo já fazia parte do automatismo do ritual. Os mais jovens iam brincar de peão, bola, soltar pipa, correr no jardim, e sempre tinha no mínimo um ou dois que caíam de bicicleta e por fim, no meio de lágrimas e mercúrio sempre tinha uma das tias que estava lá cuidando dos joelhos ralados e dos arranhões que as crianças iam – de forma nada sutil – adquirindo ao longo do dia de domingo.

 

Obviamente, nem tudo era exatamente da mesma forma, de vem em outra, o mercúrio ardido da tia não resolvia quando uma das bisnetas caía d’uma das árvores e quebrava o braço ou a perna; aí só o doutor poderia resolver tal impasse. As conversas eram sempre boas, as risadas presentes, mas nem todos partilhavam das mesmas opiniões e crenças – o que gerava – inúmeras vezes discussões quase virulentas ao ponto de alguns primos irem embora antes mesmo do almoço ser servido. Mas não tinha sequer o menor problema, pois todos estriam lá no próximo domingo, no seguinte, no outro, e assim por diante; nada podia abalar a união familiar; nem mesmo as divergências no campo da política ou da preferência por um ou outro time de futebol…

 

 

Mas aquele domingo era muito peculiar, bem diferente de todos os outros domingos que a família havia vivenciado. Já sentados à mesa – os não tão jovens membros, mas também não tão velhos – contavam suas experiências amorosas – enfim, eram praticamente coagidos a responderem tal tipo de pergunta. E também falavam de suas notas, escolas, normalmente nessa idade havia uma certa tendência para uma incontestável batalha de mostrar quem era a menina ou o menino de ouro da família. Tolices e banalidades, mas nada de tão distinto do que acontecia nos outros lares, principalmente aos domingos, e claro, os pais adoravam falar dos feitos e vitórias de seus filhos:

 

– Agora o José precisa realmente focar nos estudos para o vestibular que está chegando, um dia ele será doutor! E não é que a namorada dele é um amor de pessoa? Depois de tanto tempo, até que enfim ele achou alguém decente _ falava uma mãe, com muito orgulho de seu filho, depois dava três tapinhas na madeira da mesa para que a sorte de seu amado José continuasse assim.

– Pedro está pronto para partir para Dinamarca para fazer intercâmbio, ele é tão estudioso que conseguiu ganhar uma bolsa de estudos! Menino dedicado, só podia ter puxado ao pai _ falava um outro homem, com a barba por fazer, usando óculos e saboreando uma latinha de cerveja, no final levanta aquela lata para pedir um brinde ao seu filho prodígio, mas também parecia que levantava um troféu de tanta honradez que sentia pelo seu vitorioso Pedro.

E assim eram os diálogos durante o aperitivo, conversas sobre sucessos e realizações, raramente alguém falava dos pontos negativos de seus filhos, enfim, pelo menos não durante os almoços de domingo…

– Estávamos famintos! Até que enfim você chegou Arnaldo, só bebemos por enquanto e até agora não comemos é nada, só uns amendoins e uns torresminhos! Com o tanto de cachaça que essa família bebe, isso não sustenta não, homem! _ falava de forma sarcástica e exaltada a avó, que a titulo de curiosidade não era o membro mais antigo da família. A bisa como eles chamavam tinha acabado de completar seu centésimo terceiro aniversário, e com isso não se brincava de forma alguma!

 

Todos riam e concordavam com a vó; de fato, era hora de comer, a churrasqueira estava acesa esperando apenas a deliciosa picanha, a tulipa de frango, a linguiça de porco, o carré de carneiro (sempre temperado com um molho de hortelã). A fartura era tanta que a casa se parecia – mesmo que por algumas horas – em açougue ou até mesmo um abatedouro. Carne sendo cortada, desossada, fatiada, o sangue escorria da tábua de carne; logo atraía as moscas e os cachorros que vinham famintos para pegar as sobras ou os pedaços que caíam voluntariamente no chão.

 

Um tio afiava a faca e já cortava outro filé, a linguiça era servia em abundância; o cheiro do churrasco até que podia ser agradável – para os amadores desse tipo de refeição – mas na realidade era um banho de sangue:

 

– Vocês viram o absurdo que fizeram com o pobrezinho daquele cachorro naquele supermercado essa semana?! Eu fico realmente indignada com tudo isso! Onde vamos parar? Matar um animalzinho inocente dessa maneira… _ falava uma das primas, enquanto cortava seu bife de picanha do jeito que ela mais gostava: mal passada; escorria sangue e mais sangue a cada golpe de faca que ela dava no filé, e depois aquele sangue que sobrava no prato, misturado com um pouco de gordura e vinagrete era degustado com um pedaço de pão!

 

– Realmente _ disse um outro homem de meia idade de cabelo grisalho, segurando uma coxa de frango na sua mão direita e um drink n’outra _ torturar animais desse modo, ou de qualquer modo não é possível, não é aceitável! Quem fere um animal deveria receber o mesmo ferimento que ele causou para o bicho. Deu uma paulada? Tem que levar outra de volta! Quebrou o rabo do gatinho? Tem quer no mínimo um ou dois dedos quebrados! Chega de maltratar os animais. Néia? _ chamou sua esposa _ me traga mais uma picanha e umas duas ou três linguiças, meu bem, por favor?

 

É… Todos, sem exceção, dividiam a mesma opinião sobre o cachorro assassinado no mercado; foi um domingo tranquilo, sem embates brutais, afinal, ninguém poderia ser a favor de maltratar os animais… Indignados e perplexos com a situação, mudaram rapidamente de assunto e continuaram a comer carnes…de diferentes animais… Inocência? Hipocrisia? Negação?

 

Não dava para se saber ao certo o que se passava na mente de cada membro da família, mas uma coisa era verídica, a família tinha perdido ali, naquele domingo, toda a sua Humanidade e compaixão, pois já não podiam mais enxergar – estavam cegos – que entre um cão e um porco, um cão e boi, um cão e um frango; um cão e um homem ou mulher ou criança… Que não havia nenhuma diferença. Se a família se considerava superior aos outros animais, e mostravam certa empatia pelo cão brutalmente assassinado no mercado e por outro lado zero pesar pelos filés e linguiças… Simplesmente comiam cadáveres de outros animais…Impostores!

 

 

J.G.P.A – 10/12/2018 – “O contador de histórias – Minicontos” – Americana, SP – Brasil

 

 

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