CEM ANOS DEPOIS… E NUNCA ESTIVEMOS TÃO PERTO DAS TRINCHEIRAS – PARTE III

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“O reflexo de um país,” Rio de Janeiro, Brasil, 2015. Paul Clemence

Parte III:  Uma luta de classes “à la brasileira”, por favor!

 

Como foi defendida nas duas partes precedentes desta sequência de reflexões, esta terceira parte trará uma reflexão focada no Brasil e na luta de classes que impera em nosso país. Considero que esta luta é a única que seja verdadeiramente legítima e ao mesmo tempo interminável, pois ela está no princípio de todos os conflitos que conhecemos no Brasil e no mundo. Todas as guerras podem ser resumidas entre dois grupos (cada um com sua estranheza e seu toque heterogêneo): opressores de um lado do fronte lutando e travando batalhas contra os mais fracos, os desmunidos, os marginais, em outros termos, contra àqueles que não possuem os conhecimentos e os meios de produção, estes são os oprimidos, que por sua vez representam a maior parcela da população brasileira social e estatisticamente falando.

 

 

O opressor possui todos os meios e forças necessárias para garantir sua soberania e poder sobre a classe dos oprimidos, ele tem o conhecimento, a força de manipular massas e os meios de produção, desta forma os oprimidos são eternamente sujeitos a se submeterem à classe opressora; eles não têm nenhuma saída, nem tampouco um plano B, são totalmente dependentes do opressor. Porém, esta relação entre opressor/oprimido não pode ser considerada – em termos biológicos – como uma simbiose, mas sim, como uma relação parasitária. O opressor precisa da classe oposta para criar, produzir e acima de tudo: acumular riquezas. Do outro lado, o oprimido precisa estar à mercê de todas as condições impostas pela primeira classe para garantir sua subsistência. O parasita ou opressor, tem pleno conhecimento desta situação e sabe que se um oprimido não cumprir suas exigências ele tem à sua inteira disposição um exército de oprimidos para colocar no lugar daquele que se rebelou ou não aceitou tais condições. Então, ele usa, abusa e explora o oprimido até seu esgotamento (exatamente como faz um parasita) e quando este está totalmente gasto, ele simplesmente migra para outro corpo que também irá utilizar até seu desgaste final; o parasita em si, não mata diretamente seu hospedeiro, mas quando este último não lhe serve mais, ele simplesmente encontra outro hospedeiro, e assim o vírus opressor continua a se proliferar infinitamente.

 

 

Se olharmos na História podemos observar a construção social de uma classe intermediária, dos comerciantes, burgueses, enfim, uma classe que mudou de nomenclatura diversas vezes, para simplesmente se distinguir da classe dos oprimidos. Mas nessa pirâmide social não existe um espaço mediano no meio, ela é simplesmente composta de uma larga e extensa base de trabalhadores de todos os tipos e áreas de atuação, e uma ponta fina, minúscula e reservada a um grupo seleto e poderoso que ocupa a posição mais alta da pirâmide e comanda a sociedade como ela bem o deseja. A dita “classe média”, existe unicamente na teoria, entretanto, na prática a história é outra, ela é inexistente. Esta construção social serve única e exclusivamente para diferenciar o pobre (financeiramente falando) daquele que possui um pouco mais de meios; porém mesmo com uma grande diferença financeira entre estes dois grupos, os dois são partes integrantes da classe dos oprimidos. Em suma, apenas duas classes existem na nossa sociedade: a rica e a pobre, não há uma outra classe intermediária.

 

 

No Brasil a diferença de meios e de poder entre as duas classes é escancaradamente gigantesca, sendo a origem de tanta violência, guerra e conflitos em nosso país. A distribuição de renda no Brasil é absurdamente falha: “poucos com muito, muitos com pouco”; assim se resume a situação socioeconômica no Brasil.

 

 

Os ricos fazem parte da classe dominante e isso acontece em grande parte pela falta de manutenção e de controle sobre a taxação de heranças e patrimônios, fazendo assim com que a classe dominante sempre permanece no poder, no comando. Enquanto isso o pobre continuará sendo oprimido, pode até ser que ele consiga melhorar seu padrão de vida, seu poder aquisitivo, mudar de um bairro para outro, mas estará condenado à vida a servir a classe opressora. Aqui está a cartada de mestre dos poderosos: eles fazem com que os pobres acreditem que estão progredindo e crescendo social e economicamente na vida, desta forma, eles conseguem evitar rebeliões e manifestações da classe trabalhadora contra sua soberania opressiva; o novo ópio do povo no Brasil atual é: poder comprar um celular, um carro, uma casa própria e viajar uma ou duas vezes ao ano e, em seguida, voltar ao ofício.

 

 

Mas não é porque não exista uma grande revolução dos oprimidos contra seus mestres dominantes que a guerra não faz parte do cotidiano dos brasileiros. E a diferença entre as duas classes é enormemente grandiosa fazendo com que as trincheiras e as divisões entres elas se tornem cada vez mais intensas e profundas. Sim, cem anos depois da Primeira Grande Guerra Mundial, e talvez – erroneamente, utilizei o termo de “trincheiras” para descrever a situação do Brasil atual – mas pensando bem, o termo correto seria: ABISMO. Isso mesmo, existe um abismo de dimensões continentais que separam os brasileiros, e este buraco está ficando cada vez mais extenso.

 

 

O que gera a guerra no Brasil não é o “favelado” que mata, que rouba, o “bandido”, “o marginal”, enfim, existem inúmeros termos e palavras que tentam incansavelmente de fazer com que nós brasileiros acreditemos que a violência está nas favelas, nas áreas de conflito, nos bairros “pesados e tensos” e assim aceitamos como cordeiros, dominados por lobos, esta falsa realidade. O inimigo, o grande vilão da guerra do Brasil não é o pobre favelado e negro; o verdadeiro inimigo é o CAPITAL, ou melhor, a péssima distribuição do mesmo entre nós, irmãs e irmãos brasileiros que dividimos o mesmo solo, a mesma terra… O inimigo não é o “pivete” que rouba um celular, mas sim a classe opressora e dominante que faz com que este mesmo “pivete” não tenha outra opção na vida, ele não tem escolha… Mas é claro que a classe dominante é inteligente, pois ela possui o monopólio e o controle de todos os meios de comunicação para demonstrar como dois mais dois é igual a quatro, que o inimigo não é ela e sim o outro, aquele que mora lá na favela e que roubou seu celular que você ainda nem terminou de pagar a última prestação. A classe opressora tem tudo o que precisa para se manter no poder e ela cria a guerra e o conflito no seio da classe dos oprimidos, assim, os oprimidos lutam contra eles mesmos, no interior, no seio da mesma classe de trabalhadores, criando assim uma “diversão” e um “passatempo” onde os proletariados lutam entre si e esquecem de lutar contra o único, o legítimo e verdadeiro inimigo: O OPRESSOR!

 

 

CONTINUA…

 

J.G.P.A – 02/12/2018 – Americana, SP – Brasil

 

 

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