TIC – TOC

 

O costume da procrastinação.

 

Nossa, já estamos no mês de dezembro! O fim do ano está aí. Como passou rápido!” Quantas vezes já ouvimos e ainda ouviremos afirmações como estas, seguidas de tons de desespero, ansiedade, motivações vazias, resoluções que se dizem “mágicas” – “Vou fazer diferente ano que vem, irei mudar isso e aquilo…, mas só ano que vem, agora não.” É inegável que – temporalmente falando – o ano está chegando a termo, não posso contra argumentar tais fatos, porém, talvez seja esse o momento para entrarmos em uma reflexão sobre o tempo.

 

 

Estamos tão habituados – somos de certa forma – artistas, mestres da arte da procrastinação, deixamos tudo, ou grande parte dos nossos afazeres, para o último momento; nossa referência é o “prazo final” e assim seguimos nossas rotinas, corriqueiras e corridas; frenéticas. E postergamos de uma maneira incrível nossos deveres, obrigações e lazeres. Esperamos o fim chegar para tomarmos algumas atitudes; aguardamos o dia de Finados para irmos ao cemitério, o aniversário para presentear alguém, uma outra data importante para beijarmos, abraçarmos e pronunciarmos palavras que deveriam ser mais comuns em nossas vidas, como por exemplo, eu te amo ou parabéns; somos, na maioria do tempo, críticos com nós mesmos e também com os outros, mas ainda não aprendemos a sermos INCENTIVADORES.

 

 

Vivemos como engrenagens de uma grande máquina de produção, seguimos nossas rotinas banais, sem darmos a devida importância para o que realmente importa nas nossas vidas. Acordamos, tomamos nosso café, nos dirigimos ao trabalho, reclamamos do trânsito no regresso à casa, desperdiçamos incontáveis horas atrás de telas, sejam elas de computadores, celulares, televisões, e esquecemos assim da vida real, pois a vida virtual é uma zona de conforto que vicia. Não há motivo nem tampouco propósito em visitar aquele amigo ou primo que mora a alguns minutos ou a algumas horas de nossos lares, pois podemos simplesmente mandar uma mensagem, virtual. Convivemos e passamos mais tempo com nossos aparelhos, com nossas máquinas, ou como se diz “gadgets”, que estamos não apenas nos tornando vítimas e reféns de tais apetrechos, mas estamos NOS tornando e vivendo, e transformando nossas humanidades, nossas essências e existências em máquinas…Aos poucos estamos perdendo a capacidade de sermos sociáveis e de cultivarmos a arte do diálogo, das risadas verdadeiras ( que vão bem além de um “kkkkk” ou um emoji); e paralelamente – e de certa forma, paradoxalmente – pesquisadores e cientistas desenvolvem a cada dia que passa robôs e maquinários dotados da inteligência artificial quando as nossas próprias inteligências, capacidades e vivências se tornam igualmente ARTIFICIAIS.

 

 

 

Agora é dezembro, no Ocidente temos o Natal, o Ano Novo, período festivo de alegria e harmonia, partimos em férias, festas e êxtase e continuamos nessa arte de insistirmos nas resoluções de fim ano como se fossemos calibrados igual a um aparelho que precisa esperar um determinado momento para executar uma tarefa X ou Y. Não seria melhor se acordássemos todos os dias com esse espírito? Com essa vontade de abraçar? De escrever uma carta? De observar a natureza lentamente e todos os seus detalhes? De presentear nossos familiares e amigos? De nos darmos mais tempo para nós mesmos, e para os outros também? Mas sempre esperamos uma data específica para fazer tais coisas, não há mais espaço para a espontaneidade; tudo tem que ser programado, calculado, contabilizado. Não existe mais lugar para a surpresa, para o inesperado…

O tempo passa e continuamos a sermos seres calculistas e metódicos, considero que esse seja um dos grandes males que nos aflige. O tempo passa, mas ainda assim insistimos em esperar uma data “especial” para cuidarmos de nós e das pessoas que fazem parte das nossas vidas e trajetórias. O tempo passa e acredito que não aprendemos a aproveitar os momentos que estão logo ali, bem pertinho de nós. Estamos nos tornando cada vez mais seres emocional e afetivamente SEDENTÁRIOS! Devemos nos abrir mais para as surpresas, para o inesperado, ligar para aquela pessoa que não vemos há um tempo, ir até à casa de um conhecido, de um amigo, de um familiar, de forma inesperada, sem avisar, sem prevenir… Devemos surpreender e sermos surpreendidos sem necessariamente esperarmos uma “data certa” ou o “momento ideal”; toda data é certa! Todo momento é ideal!

 

 

A arte da procrastinação de viver e conviver em sociedade é o sinônimo de morte, não estamos vivendo, estamos morrendo e postergando. O único e verdadeiro antônimo do vocábulo “vida” não é a morte biológica, mas sim o confinamento e a morte social…cqd

 

J.G.P.A – 01/12/2018 – Americana, SP – Brasil

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