“Ervas daninhas: descartes da sociedade”

ERVA 2
“Alice e José” – Crédito foto: João Guilherme Pozzi Arcaro

    Numa manhã ensolarada de primavera, em uma cidade do interior de São Paulo, tudo ocorria dentro da normalidade – ou pelo menos daquilo que os habitantes de tal lugar consideravam como sendo “normal” – os adultos saíam para trabalhar, as crianças dirigiam-se para suas escolas. Tudo funcionava conforme a norma: os cheiros de café e pão fresco exalavam das padarias; o trânsito pouco a pouco se intensificava, barulhos vindo dos carros ou das vozes sonolentas formavam uma perfeita sinfonia, claro se você tivesse o ingresso para participar de tal concerto, o que de fato não era o caso de Alice e José.

 

    Este casal – que não possuía um carro, nem um emprego – ficou de fora da harmonização robótica do comportamento socialmente aceitável, que era realizado de forma mecânica pelos outros indivíduos. Viviam assim, às margens da sociedade, seres quase invisíveis, imperceptíveis e inaudíveis, porém tanto Alice quanto José existiam, eram dois seres humanos, de carne e osso – como você, como eu – mas não tinham os requisitos para serem vistos ou notados; sem carro importado nem roupa de marca, assim deambulavam pela cidade. Eles tinham um destino certo: o cemitério da Saudade.

 

    Um lugar onde nós temos costume de realizar o processo de limpeza e esvaziamento de nossos mortos, tudo aquilo que não queremos ver, pois não possui mais vida, colocamos dentro de um buraco, para que fique lá escondido e se decompondo lentamente, longe do alcance de nossa visão. Às vezes vamos ao cemitério levar uma ou duas flores, rezamos ou fazemos qualquer gesto simbólico em memória daqueles que nos deixaram. Mas cemitérios são lugares abandonados, malcuidados, deixados à deriva; um sítio de História e esquecimento ao mesmo tempo.

 

    As ervas daninhas cresciam por toda parte, sob(re) os túmulos, nas estreitas veredas do cemitério. Alice e José acharam o lugar onde pudessem se encaixar mais facilmente dentro da sociedade: estando fora dela, junto aos mortos e às ervas que ninguém se preocupava em cuidar, nem as remover. Deitaram-se sobre um dos túmulos como se fossem reis e rainhas, e às sombras da sociedade, fora do campo de visão dos robôs que marchavam para se dirigirem às suas rotinas, Alice e José eram donos daquele pequeno espaço, onde se bronzeavam e aproveitavam o sol. Não eram ervas, não estavam mortos, mas lá, deitados acima de alguns defuntos fumavam em paz suas próprias ervas…

 

ERVA
“Ervas daninhas” – Crédito foto: João Guilherme Pozzi Arcaro
Anúncios

Um comentário em ““Ervas daninhas: descartes da sociedade”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s