Uma “gentileza” (quase) fatal

 

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Crédito imagem: Imagem do disco “Abbey Road” – ” The Beatles”

 

Lá estava eu dirigindo, sim um ato um tanto quanto banal quanto necessário para ir de um ponto A para um ponto B. Até aí, nada de anormal e nada de misterioso, uma simples ação de dirigir que poderia ter se transformado numa enorme tragédia…

 

Toda vez que pego o carro, tento munir-me de cuidado e atenção — não apenas para minha própria segurança — mas igualmente para a segurança de todos ao meu redor: idosos, crianças, adultos, animais, enfim, aqueles que eu possa eventualmente ferir ou até mesmo matar se dirigir com imprudência e irresponsabilidade. Acredito que não seja o único nesta situação, caso contrário os acidentes seriam ainda mais frequentes, vale ressaltar, entretanto, que dirigir, por ser um ato corriqueiro e banal, torna-se um hábito, e este hábito muitas vezes leva a um certo tipo de “automatismo”; estou acostumado a dirigir, a seguir determinada rota e sigo, às vezes, sem prestar a merecida atenção.

 

Penso que este seja o meu maior defeito como condutor. Seguir por caminhos conhecidos, onde estou habituado, pois, reduzo — sei com muita convicção que não deveria — a atenção que aplico neste ato de dirigir; e, por outro lado, quando estou em uma estrada que pouco conheço, estou sempre alerta, uma atenção multiplicada. Reconheço aqui um grande erro do meu “eu” motorista, mas acredito que reconhecer este erro (e escrever sobre ele) me faz refletir para que eu possa aplicar uma mudança neste hábito em relação ao meu modo de dirigir

 

Pois bem, lá estava no carro, numa rua que já havia passado incontáveis vezes, sabia de cada curva, lombada, semáforo, enfim, todos os detalhes daquela via. E o mais importante, sabia igualmente que era um trajeto movimentado, não apenas de carros, motos e ônibus, mas uma avenida repleta de pedestres, crianças brincando no parquinho ao lado, comerciantes e ambulantes.

 

Quase no final da rua, se encontra um mercado onde a maioria dos clientes (pelo que pude observar inúmeras vezes) tem uma certa idade, pessoas idosas que muitas vezes se movem com dificuldade, lentidão e desatenção, o que transfere, ao meu ver, toda e qualquer responsabilidade aos motoristas. Acredito que não podemos pedir para que os idosos saiam da nossa frente correndo, que atravessem a avenida como se estivessem correndo uma maratona. Estes que tanto ofereceram, deram e suaram durante todas suas vidas e agora lá estão, gozando de suas míseras aposentadorias, aproveitando de uma manhã para fazer suas compras no supermercado da avenida. Respeito e civilidade são qualidades primordiais cada vez mais escassas e, nesse aspecto, me considero um “outsider”, alguém que vai contra a corrente. Meu pensamento é simples, “não é porque todos os outros motoristas se comportam sem um mínimo de respeito nem civilidade que vou agir de tal maneira”; então ajo diferentemente.

Não me considero gentil ou altruísta ao realizar este ato, acredito apenas que seja o correto a ser feito para que possamos melhor aplicar o que J.J. Rousseau chamou de “contrato social”. Tal contrato seria um contrato fictício, pois, nenhum cidadão nem sequer teria assinado o mesmo, tal contrato não possui um suporte de papel ou outro, é um contrato moral que nos é “imposto” (de certa maneira) para vivermos em harmonia com os outros indivíduos. O que é bem interessante neste conceito de contrato social é que ele não está inscrito em nenhuma lei ou código jurídico, ele existe e nos guia e na maioria das vezes nem percebemos que estamos vivendo sob as normas sociais (que se diferenciam das leis) morais. Por exemplo, a lei me diz que eu não posso matar, e para este crime eu sofrerei uma punição. Já uma norma me diz que é “educado” dizer “bom dia”, mas caso eu não diga estas palavras, eu não serei punido por nenhuma lei ou código que exista. Aí está a principal diferença entre lei e norma, explicada de forma sintética e simples.

 

Como não existe nenhuma lei que me obriga a parar antes da faixa de pedestres para que idosos com sacolas pesadas, saindo do mercado num dia quente, possam atravessar a avenida, olhei no retrovisor e vi que não havia um carro sequer. Parei lentamente o carro e fiz sinal ao casal de idosos que eles podiam atravessar. Num primeiro momento vi que eles se espantaram, como se eu estivesse fazendo algo errado (ou talvez algo com o qual não estava acostumado?), e depois de alguns segundos, o casal percebeu que SIM, EU TINHA PARADO PARA QUE ELES PUDESSEM ATRAVESSAR! Então eles começaram a atravessar a avenida, no ritmo deles, e com os olhos fixos em mim, olhos que, juntamente com gestos feitos com suas mãos e os sorrisos estampados em seus rostos, me agradeciam.

 

Não entendi o que estava fazendo de tão “espantoso” ou “nobre” (mesmo sendo, reforço, um ato normal para mim) até que na faixa da direita um outro carro que havia percebido que eu tinha parado para que o casal de idosos atravessasse, não parou tão rápido. Este motorista em questão foi parar quando seu carro estava há poucos centímetros do casal!

 

“Caramba! Pensei. Quase matei dois velhinhos! Pela madrugada! ”

 

Fiquei espantado e com medo. Os carros que chegaram atrás de mim, começaram a fazer um uso indiscriminado de suas buzinas e gestos de impaciência e de uma certa grosseria seguida de palavras de baixo calão (que não convém serem ditas aqui), de que meu ato de “gentileza” poderia ter causado um tremendo dano, podendo até mesmo ser fatal. E neste caso, por mais que tentariam talvez de me convencer do contrário, eu me sentiria para todo o sempre como um assassino de velhinhos.

 

Resumo da ópera: aquela noite vi meu grande companheiro e guia Jean Jacques Rousseau se remoendo e se contorcendo em seu caixão, pois, depois de tanto tempo os indivíduos ainda não aprenderam a viver em sociedade e seu “contrato social” não está — infelizmente — sendo aplicado como deveria

 

J.G.P.A – Americana, São Paulo, Brasil – 23/09/2018

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